TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

17 de setembro de 2017

23:29


   Após pressões midiáticas de grupos populares, políticos e religiosos, o cancelamento da exposição artística pelo Santander, em Porto Alegre, gerou polêmicas acerca da intrigante relação entre moralidade e arte, razão pela qual temos um momento oportuno e propício para discutir algo que, até certo ponto, ainda permanece alheio a quem professa a fé em Jesus Cristo.

   O cineasta britânico, Alfred Hitchcock, famoso diretor de filmes de suspense, como Psicose e Um Corpo que Cai, desenvolve de maneira artística a seguinte lógica: a conduta ilícita, por ser ilícita, é tomada em escondido, apartado dos olhos da sociedade.

   A título de exemplo, as cenas do clássico filme Psicose que retratam atitudes tidas como imorais e/ou ilícitas – tais como o “caso” entre Marion Crane e Sam Loomis num quarto de hotel e a morte de Marion no motel de Norman Bates – são filmadas com um jogo de imagens no qual a câmera sempre começa apontando para uma janela fechada e, posteriormente, ao ilícito/imoral, indicando que a conduta adotada sempre é feita “às janelas fechadas”, sem que ninguém veja ou saiba.

   Tal lógica pode ser percebida em Gênesis 3.8-10, quando Adão e Eva se escondem da presença de Deus por terem desobedecido aos preceitos por Ele estabelecido, de modo que se sentiram envergonhados ou temerosos com o que haveria de acontecer.

   Parece-me que o encerramento da exposição artística pelo Santander, em Porto Alegre, nos coloca a esse importante ponto de análise: e se o pecado, o ilícito e o imoral forem descobertos e retratados em público? Qual a nossa reação?

  Tive a oportunidade de ver algumas das pinturas ali propostas, divulgadas na internet. Reunindo obras de vários artistas, inclusive mundialmente famosos como Cândido Portinari e Alfredo Volpi, a mostra sobre diversidade trazia obras que retratam o processo de colonização do Brasil, o que incluía a prática sexual entre seres humanos e animais. Também expõem questões de gênero em crianças que merecem ser debatidas e desenvolvidas. Entendo, no entanto, que a exposição artística, como a própria expressão sugere, é uma exposição, um retrato. E, ao pleitear seu encerramento, ou boicote, sob a bandeira de que “há uma promoção do imoral”, entendo que nos desviamos do foco em relação ao qual devemos nos ater.

   Pensemos por um instante. A arte é um veículo de exposição de realidades. É um meio pelo qual manifestamos a criatividade dada por Deus para retratar realidades e situações decaídas ou não. É um meio, não um fim.

   Se a arte contemporânea retrata alguma realidade diversa daquela proposta pelo Evangelho, então, em verdade, deveríamos nos preocupar não com a sua censura ou boicote, mas com o que ela representa. A realidade por ela retratada deveria nos fazer meditar sobre a distância que estamos em relação ao plano original de Deus e que talvez tenhamos falhado com nossa missão de recompor a justiça e o amor, manifestados em Cristo Jesus. Pela arte deveríamos ser levados a refletir sobre nossas próprias estratégias de transformar o mundo. 

   Entendo que a censura, o boicote e o encerramento de uma exposição não é o caminho. Caso contrário, continuaremos a viver alheios ao que ocorre a nossa volta. A pobreza, a injustiça, o homicídio, o suicido, a pedofilia etc. são por nós conhecidos graças ao que nos é exposto mediante os veículos artísticos e tecnológicos. 

   Como disse o apóstolo, a nossa guerra não é contra as pessoas, mas contra as forças e poderes espirituais que dominam este mundo (Efésios 6.12). Devemos lutar não contra a exposição artística, mas contra o que ela retrata e o que leva as pessoas a serem o que são: pedófilas, estupradores, racistas, egoístas , insensíveis com a condição de seu próximo, religiosas, idólatras etc.

   Se a arte nos chocou, talvez seja porque estávamos alheios a uma realidade que deveríamos estar atentos. A censura artística, em verdade, pode representar a permanência de uma realidade em relação a qual queremos nos manter alheios, além de um possível despreparo crítico com relação ao mundo
artístico.

   Se vemos algo espiritualmente imoral, ilícito ou errado, não somos chamados a fechar os olhos e a manter distância, mas a nos aproximarmos com o fim de mudar a realidade, reconciliar o belo e o puro. Somos o sal da terra e a luz do mundo. Não se esconde uma candeia acesa debaixo de uma vasilha.

   Parece-me que parcela da igreja tem feito muito barulho, mas pouco mudança efetiva. Gritamos contra todas as condutas que julgamos ser imorais, mas poucos estão dispostos a entrar num discipulado firme (“vão e façam discípulos”) a ponto de, com testemunho de vida e excelência profissional a partir de Cristo, recompormos uma cultura a longo prazo, baseada no serviço e amor incondicional que Deus tem conosco.

   Tenho a leve impressão de que se a exposição cultural do Santander retratasse o mundo do crime urbano e a pobreza, não haveria a luta por encerrá-la sob a bandeira da “apologia ao crime e à pobreza”, porque, neste caso, já é uma realidade conhecida por nós e não opinaríamos, pois estamos anestesiados com ela. Tal observação, inclusive, nos leva a crer que temos "preferências" em tratar pecados. 

  Vejam. Não estou propondo uma espécie de cristianismo em que o respeito e o senso crítico sejam uma desculpa para nossa inércia, pois entendo que o amor de Cristo nos constrange e nos transforma. E este é o ponto. Devemos estudar a realidade na qual devemos trabalhar. Não é a arte em si, mas o que ela representa e retrata para nós.

   A arte te incomoda? Então, transforme-a.