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22 de agosto de 2017

17:36

Por: Cássio Gomez[1]
Vivemos em uma época que está crescendo cada vez mais o número de pessoas obesas, pessoas acima do peso ideal. Olhando a nossa volta, observamos isso nitidamente. Atualmente, no mundo todo existe mais de 2 bilhões de pessoas acima do peso ideal. Segundo pesquisadores, entre as razões desse aumento, está o sedentarismo em todos os níveis. A vida moderna está marcada pela falta de atividade física, e por conta disso, não há gasto calórico suficiente, ou seja, estamos comendo mais e gastando menos. Do ponto de vista termodinâmico, estamos armazenando calorias. Com a mesma semelhança, está crescendo outra obesidade que tem tomado conta da vida dos cristãos. Essa, por sua vez, é mais perigosa e de consequências mais sérias, pois seus sintomas não são tão visíveis quanto a outra, dificultando o reconhecimento de quem a tem. Estou falando da obesidade espiritual.
Está crescendo com frequência o número de obesos espirituais. Pessoas que têm se alimentado com a palavra de Deus, mas que estão com muita dificuldade para colocar em prática tudo aquilo que estão aprendendo, e a consequência disso é a obesidade espiritual, por conta da quantidade de conhecimento armazenada.
Semelhantemente a uma dieta para obesidade física, existe uma dieta espiritual para permanecermos no ideal de Deus, que é o equilíbrio do alimentar-se da palavra e praticá-la. 
Interessante que esse problema da obesidade espiritual não é novidade, ele existe há algum tempo. Quando vamos para a Bíblia, e mais especificamente, para a carta de Tiago, esse parece ser o problema que ele está combatendo. Identificamos que ela foi escrita para os judeus convertidos ao cristianismo, pessoas que conheciam o Antigo Testamento, as Escrituras, mas que tinham algumas dificuldades para viver em conformidade com o que conheciam acerca de Deus. Na verdade essas pessoas não conseguiam colocar a sua fé em exercício, ficando obesas com tantas informações. Por isso, o objetivo principal da carta era encorajar as pessoas à praticarem o cristianismo diariamente em suas vidas.
À medida que lemos a carta, percebemos que o tempo todo o autor está encorajando e exortando aquelas pessoas a praticarem a fé, a agirem em conformidade com a profissão da fé. Portanto, como o próprio Tiago afirma, a fé sem obras é morta, pois a fé verdadeira precisa ser demonstrada por meio delas, ou seja, por meio da sua maneira de viver. Está fé precisa ser vivida, não apenas expressas em palavras, mas executada (Tiago 2.14-17), e uma das maneiras que Tiago nos fala sobre a fé autêntica ou apenas religiosa, é como temos reagido após ouvirmos a Palavra de Deus. Ele vai nos mostrar que o cristão saudável é aquele que ouve e pratica a palavra de Deus com a mesma intensidade. 
Observamos o que Tiago diz: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos” (Tiago 1.22). O que chama atenção nessa passagem é que o versículo diz que o conhecimento da palavra de Deus sem a prática é enganoso. Não basta só aprendermos e ouvirmos sobre Deus, precisamos praticar as verdades que aprendemos (Rm.2.13). 
Era comum entre os judeus da época um grande apreço pelo ouvir a leitura e a exposição da lei aos sábados nas sinagogas. Gloriavam-se no mero fato de ouvir a lei. Este público eram frequentadores de igrejas, pessoas que estavam todos os domingos na escola bíblica dominical, que participavam de grupos pequenos e estudos bíblicos, mas não passavam de frequentadores que só ouviam. Estavam enganando a si mesmos. 
Interessante que a palavra “praticante” nesse contexto tem a ideia de um ator que quando entra em cena tem que fazer tudo àquilo que está no script, nada mais, nada menos, apenas o que está escrito. Era esta ideia que autor bíblico tinha em mente, que as pessoas obedecessem o script da Palavra de Deus, porque para Tiago, Deus não está apenas interessado no quanto sabemos, mas também no quanto vivemos. Se o conhecimento não gera um coração mais obediente e contrito, não faz sentido aprender por aprender. 
As pessoas têm muita facilidade para ouvir a palavra de Deus. O tempo todo estão recebendo vídeos no WhatsApp com mensagens de Deus, entram no Facebook e deparam-se com várias pregações de toda parte do mundo, podem ouvir grandes pregadores, como John Piper, John MacArthur, Paul Washer, R.C.Sproul, Augustus Nicodemus na palma da mão com um smartphone. Hoje não precisa sair mais de casa para ir a uma conferência relevante, você pode participar dela estando dentro do quarto com apenas um notebook conectado a internet. Por conta do avanço da tecnologia, o acesso a grandes pregadores e igrejas aumentou também. Além disso, todo fim de semana estamos sentados nos bancos das igrejas ouvindo pastores pregarem a palavra. 
Paremos para refletir: Quantas pregações expositivas já ouvimos até hoje? Quantos vídeos do YouTube assistimos que falavam de Deus? Quantas escolas bíblicas dominicais já frequentamos? De quantos estudos bíblicos participamos? Quantos discipulados fizemos? Quantos livros de teologia lemos? E o quantas implicações que aprendemos resultaram em prática?
Aprendemos muito sobre oração, mas quase nunca oramos. Aprendemos muito sobre amar a Palavra e dedicar tempo estudando ela, mas nem sequer lembramos que temos Bíblia em casa. Para muitos cristãos, o tempo de ler a Bíblia é somente aos domingos e na igreja. Não é à toa que 50% das pessoas cristãs em nossos dias não leram pelo menos uma vez a Bíblia inteira. Aprendemos muito sobre renúncia e sacrifício, mas esquecemos o que isso significa. Aprendemos muito que devemos amar o nosso próximo, mas não fazemos nada pelos outros. Aprendemos muito sobre santidade, mas na verdade buscamos a carnalidade.
Tiago não quer dizer que a partir de agora não devemos ouvir mais a Palavra, muito pelo contrário, ele nos incentiva a continuar ouvindo-a (Tiago 1. 19). O ponto é que precisamos urgentemente lutar para colocar em prática as verdades maravilhosas da palavra de Deus. Talvez o nosso país tivesse menos corrupção, menos desigualdade social, menos pobreza, menos índice de criminalidade, se os cristãos que enchem as igrejas todo domingo, começassem sua semana colocando em prática tudo aquilo que aprenderam da palavra de Deus.
Precisamos tomar cuidado para não entrarmos na estatística das pessoas que são obesas espirituais, enganando a nós mesmos. À medida que O conhecemos mais, que possamos vivê-Lo mais, para que todo conhecimento de Deus que há em nosso coração possa gerar em nós uma vida diária de adoração (Rm. 12.1-2). 








                




[1] Cássio Gomez é formado pela Faculdade de Direito da Alta Paulista (FADAP), em Tupã-SP. Atualmente, estuda no Seminário Martin Bucer e auxilia na liderança do ministério de jovens da Igreja Batista de Tupã, trabalhando com o público universitário.

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