TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

2 de maio de 2017

17:00


É Possível ser Feliz sem ser Livre? 

A Bela e a Fera é um tradicional conto de fadas francês. Ele descreve a história de uma moradora de uma pequena aldeia francesa, a Bela, que tem o pai capturado pela Fera e decide entregar sua vida à besta em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. Na verdade tanto a fera quanto a bela agora estavam presos. Prisões diferentes, mas que cerceava o poder de escolhas e de ir e vir. Determinado momento a fera pergunta a bela se ela poderia ser feliz mesmo presa no castelo, é quando a linda moça responde: “- É POSSÍVEL SER FELIZ SEM SER LIVRE? ”

Bem, a despeito de toda a trama e polemicas em torno da nova versão do conto, vamos nos ater aqui a essa questão da liberdade como premissa para a felicidade. Com certeza as discursões sobre a liberdade nem são poucas, muito menos novas. Pensadores gregos como Platão e Aristóteles[1]; medievais como Agostinho de Hipona[2], Tomás de Aquino, Boécio e Anselmo; até pensadores contemporâneos como Sartre[3]; e atuais como Simon Blackburn[4] acentuaram a importância da questão. Esse tema ainda é presente em diversos ramos do conhecimento como história, filosofia, teologia e até neurociência[5]. Tudo isso para se descobrir a verdade sobre o conceito de liberdade[6].
Tudo isso junto, há muito tempo, discutindo sobre esse mesmo assunto. No entanto, o que nos resta perguntar é: “o que eu e você temos a ver com isto e quais são as implicações disso para meu dia-a-dia?” Bom, vamos trazer esta celeuma para nosso campo de estudo teológico. A grande questão entre os teólogos é: como conciliar a infinita soberania de Deus e a finita livre agência[7] do homem? Por isso, seu conceito sobre liberdade das ações do homem vai definir, ou no mínimo dizer algo, sobre a sua teologia e como Deus se relaciona com o homem e com o mundo que Ele criou.

Agostinho de Hipona (354 – 430) foi o primeiro grande teólogo e filósofo a aventurar-se no campo da conciliação entre fé e razão. Para Agostinho o homem não tem a sua liberdade castrada pelo fato de Deus já conhecer o seu futuro. Mas há pensadores[8] que defendem o seguinte silogismo: (1) seres humanos são verdadeiramente livres, (2) se Deus soubesse o futuro absolutamente, os seres humanos não poderiam ser verdadeiramente livres, (3) portanto, Deus não sabe absolutamente tudo sobre o futuro. Esse pensamento é do teísmo aberto que acredita que o futuro não pode ser conhecido. Portanto, Deus sabe tudo o que pode ser sabido – mas Ele não conhece o futuro.

Teologia do processo ou teísmo aberto é a interpretação da realidade pelo processo que proporciona o fundamento para o viver responsável e transformador do mundo, o alvo desejado por eles. Mostrando assim a pertinência da fé cristã para uma cultura cada vez mais imbuída da lógica do devir[9], onde todo o processo continua a ser uma interpretação da realidade. Assim a realidade não é estática e sim um processo. Por isso Deus é exemplificação máxima de todos os indivíduos. Deus e o mundo são interdependentes.

As principais características desta teologia são:

1. Seres humanos são verdadeiramente livres (só pode haver real relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de Deus);

2. Deus ignora o futuro (se Deus soubesse o futuro absolutamente, os seres humanos não poderiam ser verdadeiramente livres, assim ele é determinado pela combinação do que Deus e suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois Deus vive no tempo, e não fora dele);

3. Deus é vulnerável: Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos e orientações;

4. Deus muda: Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e até mesmo se arrepende de decisões.

5. O atributo mais importante de Deus é o amor.

Vamos contrapor essas ideias usando os seguintes argumentos bíblicos:

1. O que vem a ser verdadeiramente livre na concepção deles? Se verdadeiramente significa perfeitamente ou de fato real, qual é o parâmetro bíblico para isso? Vamos pensar num ambiente perfeito descrito pela bíblia que é o céu com a presença do Senhor Deus. Lá, com certeza, será tudo realmente perfeito. Acredito que no nosso espaço tempo limitados temos noção, do que Deus permitiu que conhecêssemos, do que é real. E o que a bíblia nos diz é real a todo tempo[10]. Lá no céu nossa mente e corpo, completamente renovados, não terão a opção de pecar. Não teremos essa “liberdade”. Logo, isso é falso? Pelo fato de não termos essa opção isso não é real ou verdadeiro? Então não estaremos amando a Deus de verdade? Ou não estaremos verdadeiramente livres? Ainda podem dizer: - mas no céu é outra coisa, é outro contexto. Dai teríamos que começar a relativizar tudo, e quando se relativiza tudo quem é o certo e qual é o parâmetro? O que é real sempre será real e o que verdadeiro sempre será verdadeiro. Aqui ou lá o que mudará é que lá alcançaremos a plenitude de tudo que o Senhor prometeu. Hoje vivemos no dilema “já, mas ainda não”.

2. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Deus é autodeterminado[11], assim o homem, em todos os tempos. Deus sempre age segundo Sua escolha e faz como Lhe apraz, assim também o homem. Deus não pode transcender-se e agir contrário ao Seu caráter. Nem o homem o pode. Deus está sempre determinado para o bem. O homem, depois da queda, está sempre determinado para aquilo que é espiritualmente mau. Um homem regenerado está determinado, em geral, para aquilo que é bom. O homem não pode fazer diferente que continuar pecando por causa do seu estado natural (Jr 17:9; Pv 4:23; Jó 14:4; Jr 13:23; Jo 6:65; Rm 8:7,8; I Co 2:14). Mas sua continuação no pecado se deve ao seu próprio caráter que lhe causa escolher as trevas mais que a luz (Jo 3:19). A diferença entre os estados não regenerados e regenerados não é em consideração à liberdade da vontade senão no fato que, antes da regeneração, o homem é o “escravo do pecado” (Jo 8:34), enquanto que, depois, os crentes são pelo poder da nova vida “escravos[12] de Deus” (Rm 6.22), “escravos de Jesus” (1 Co 7.22), e “escravos da justiça” (Rm 6:18). Em ambos os casos os homens são servos e a vontade está sujeita ao caráter, sendo tão livre num caso como no outro[13].

3. Agora se você acha ruim ser escravo de Cristo lembre-se que Jesus é perfeito, Suas ordens são perfeitas, Seus desígnios são perfeitos, Sua vontade é boa perfeita e agradável, Seus sentimentos são perfeitos, ou seja, sendo propositalmente redundante, Ele É. Quem é você? O que há de bom em você por você mesmo sem Cristo? Onde suas decisões têm levado você? Como teus sentimentos tem se mostrado? Logo, meu caro, eu prefiro ser escravo de um Senhor perfeito do que ser livre e seguir a minha natureza pecaminosa.

4. Deus tem sido desde toda a eternidade (Jo 5.24) e como sua causa de existência se encontra nele próprio Ele não tem término ou fim (1 Rs 8.27; Atos 17.24), não estando sujeito ao tempo (Gn 21.33; Sl 90.2); sendo infinito e eterno Deus está acima da possibilidade de mudança (Ml 3.6; Tg 1.17; Sl 102.27; Hb 13.8); tem poder ilimitado para fazer qualquer coisa que queira pois não é condicionado nem limitado por qualquer pessoa fora dEle mesmo (Mt 19.26; Jó 42.2; Sl 93.3-4); Ele tem o conhecimento de todas as coisas pois é infinitamente inteligente (Rm 11.33; Jó 11.7-9; Is 40.28; Mt 11.21). Em contradição ao teísmo aberto, o Salmos 139, versos 4 e 16 declaram: “Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda... e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”. Como Deus poderia prever detalhes sobre Jesus Cristo no Antigo Testamento se Ele não conhecesse o futuro? Como Deus poderia de alguma maneira garantir a nossa salvação eterna se Ele não soubesse e estivesse no controle de tudo o que haveria de acontecer no futuro?

5. "Deus é amor", encontramos essa afirmação em 1 João 4.8 e 16, e podemos ver a centralidade da ética bíblica desse amor que imita o amor de Deus (Êx 20.1-3; Dt 6.4-9; Jo 13.34,35; ICo 13; Fl 2.1-11; Uo 3.16; 4.10). Mas será que estas passagens são suficientes para colocar este atributo de Deus como superior ao outros? Será que Deus é menos santidade e mais amor? Ou menos justiça e mais amor? Certo é que não se tem base bíblica para colocar um atributo maior que outro, mas levando em consideração que Deus é perfeito será mais contextualizado biblicamente pensar que Deus é tudo o tempo todo. Logo, quando formos pensar em Deus não há como pensar nEle sem todos Seus atributos juntos ou muito menos com Seus atributos guerreando entre si para ver qual o que se sobressai. Isso sim pareceria tendencioso. O amor de Deus é um amor justo, um amor eterno, um amor soberano, um amor onipotente, um amor soberano e um amor imutável.

O conceito do teísmo aberto não é, portanto, bíblico. É simplesmente outra forma de o homem finito com a sua mente finita tentar entender um Deus infinito. Mesmo que o teísmo aberto seja uma explicação para a relação entre o pré-conhecimento de Deus e a livre agência do ser humano, o mesmo não é explicação bíblica. O dualismo soberania de Deus e livre agencia do homem existe, mas seria mais intelectualmente honesto afirmar: - “não sei como estes dois fatos se conjugam, mas está na bíblia”. Como diria um professor meu: “o homem é como uma flecha lançada ao ar. Ela está livre e voando, mas há um arqueiro que a lançou em direção a um alvo.” [14]

Logo, respondendo a Bela, devemos lembrar que NÃO HÁ COMO SER FELIZ SEM SER LIVRE. Mas a liberdade aqui não é a da prisão de quatro paredes, pois Paulo passou seus últimos dias preso e esteve feliz em Cristo, basta ler suas cartas da prisão. Porém, trata da LIBERDADE PARA FAZERMOS ESCOLHAS CERTAS.  Só seremos felizes com escolhas acertadas. Escolhas acertadas, com o propósito e motivações corretas, só podem vir de Cristo que conhece o futuro e tem o controle sobre seus escravos.

Em João 8:32: “CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ”, Cristo se referiu à liberdade da natureza do cativeiro do pecado e não à livre agência. A posição da vontade, a natureza e as leis da ação do homem são as mesmas antes e depois da conversão. Tanto antes como depois da regeneração a vontade expressa o caráter de alguém. E o caráter que leva o homem a verdadeira felicidade e a fazer escolhas certas é o caráter que procede da mente de Cristo[15] que habita nos servos do Deus altíssimo, nas pessoas com mente transformada que nasceram de novo. QUER SER FELIZ? QUER SER LIVRE? CRISTO TEM QUE SER O SENHOR DA SUA VIDA. Ele tem que ter o controle e nós devemos esperar a transição do “ainda não” para o “já” e alcançarmos plenitude.

A respeito da trama e polemicas em torno da nova versão do conto, fica para outro pensamento peregrino. Até mais.



[1]  Aristóteles (Séc. IV a. C). Ele trata desse assunto em Ética a Nicômano. Ele declara que é livre e voluntária, a ação que não sofre coações. Todos os processos do universo e todos os seres, inclusive o homem possuem um fim, uma meta, o ser humano se diferencia dos outros por conhecer essa meta através de sua razão e por exercer ações voluntárias e morais que o guiarão à sua meta natural, ao seu bem.
[2] Quando Agostinho ressalva no capítulo X do livro “A cidade de Deus” “não peca o homem precisamente porque Deus soube de antemão” ele defende que apesar de Deus saber de antemão o que vamos fazer, ele não controla as nossas ações. Para Agostinho você possui a faculdade de perceber o bem e o mal, mas livre é aquele que possui sobre si a graça de Deus, pois sem esta graça é completamente impossível fazer o bem. Quando você está distante de Deus pela natureza pecaminosa que você possui (resultado do pecado original de Adão) a sua vontade sempre tenderá para fazer o mal. Sem a graça de Deus não existe liberdade.
[3] Na obra O ser e o nada- ensaio de ontologia fenomenológica (1943) e O existencialismo é um humanismo (1946),o filósofo defende que a liberdade é condição fundamental da ação e o homem está condenado a ser livre. O homem, ainda, é livre e sua ação é intencional. O que importa é o caráter intencional; é mesmo essa intencionalidade da ação humana que merece destaque. Por fim, escolher é angustiante e o homem é, afinal, condenado a ser livre.
[4] A liberdade, segundo Simon Blackburn, reside precisamente na capacidade de pensar duas vezes e de não fazer a primeira coisa que vem à cabeça. O homem manifesta essa capacidade na habilidade de responder a razões, de incorporá-las ao comportamento, no poder de escutar uns aos outros, de aceitar argumentos, de ser dissuadidos de cursos de ação por pressão dialógica e assim por diante.
[5] Novas pesquisas sugerem que o que cremos ser escolhas conscientes são decisões automáticas tomadas pelo cérebro. O homem não seria, assim, mais do que um computador de carne. No entanto poderemos abordar melhor este conceito em outro pensamento peregrino.
[6] Aqui não temos como objetivo de ter uma discursão exaustiva sobre este conceito, mas de levantar algumas implicações.
[7] Para alguns estarei falando de livre-arbítrio, mas por uma questão doutrinária entendo este conceito melhor explicado como livre agência que acredito assim: A. H. Strong diz: “Livre agência é a faculdade de autodeterminar-se em vista de motivos ou poder de o  homem  (a) escolher entre motivos e (b) dirigir sua atividade subsequente conforme com o motivo assim escolhido”(Systematic Theology, pág. 176). Um agente é “alguém que age, realiza um ato, ou tem poder para agir – uma força em movimento”.
[8] Ganhou popularidade por meio de escritores norte-americanos como Greg Boyd, John Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, estas ideias têm sido assimiladas e difundidas por alguns líderes evangélicos, às vezes de forma aberta e explícita.
[9] Para Heráclito de Éfeso, nascido por volta de 540 a.C., tudo o que existe está em permanente mudança ou transformação. A essa incessante alteração deu o nome de DEVIR.
[10] 1 Pedro 1.24-25. 24Porquanto: “todo ser humano é como a relva e toda a sua glória, como a flor da relva; a relva murcha e cai a sua flor, 25mas a Palavra do Senhor permanece para sempre”. E essa é a Palavra que vos foi evangelizada. Mateus 5:18. Com toda a certeza vos afirmo que, até que os céus e a terra passem, nem um iou o mínimo traço se omitirá da Lei até que tudo se cumpra.
[11] Segundo Wehmeyer (1992), a autodeterminação representa um conjunto de comportamentos e habilidades que dotam a pessoa da capacidade de ser o agente causal em relação ao seu futuro, ou seja, de ter comportamentos intencionais.
[12] Sugiro a leitura do livro Escravos. Em Escravo, John MacArthur traz à luz um elemento essencial da identidade do cristão, que ficou oculto a partir da tradução de muitas versões modernas da Bíblia. O autor resgata a correta tradução da palavra grega doulos, que é de grande importância para o bom entendimento do que é ser um cristão genuíno. Presente 124 vezes no texto original do NT, a palavra escravo (doulos), por motivos incertos, foi substituída por servo. Segundo MacArthur, essa tradução incorreta acobertou o verdadeiro significado do termo escravo e trouxe grande perda para o ensino correto do evangelho, o qual ordena que os crentes se submetam a Cristo completamente, não apenas como servos contratados, mas como quem pertence inteiramente a Ele.
[13] http://palavraprudente.com.br/biblia/teologia-sistematica-t-p-simmons/cap-19-a-livre-agencia-do-homem/
[14] Este professor foi o Marcos Granconato em uma aula de teologia sistemática no SBPV.
[15] 1Co 2:9-12 Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus.