TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

2 de março de 2017

18:00

Série - O Evangelho na vida de um ateu: O Filósofo, o Romancista e o Físico

Por que (não) sou cristão?

Bertrand Russell, renomado filósofo ateu do século XX, escreveu um livro chamado “Por que não sou cristão?”, de forma a expor e demonstrar as bases para um posicionamento cético em relação à fé em Jesus Cristo.

Como ele mesmo afirma, foi educado como protestante e um dos textos mais incutidos em sua mente foi “não seguirás a multidão para fazer o mal” (Êxodo 23.2).[1]

Russell, no entanto, faz uma importante denúncia em relação ao inerente apego humano àquilo que é “reprovável”. Diz ele que:

“Se fosse possível fazer os norte-americanos acreditarem que o casamento é um pecado, talvez eles não mais sentissem a necessidade do divórcio.”[2]

De forma semelhante, ao descrever o anseio humano em permanecer no “pecado”, tal como Russell identifica, o Apóstolo Paulo escreve:

“Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.” (Romanos 7.19)

Ambos denunciaram o mesmo fato: temos a vontade inata de experimentar o que nos é proibido.

Que diferença há, então, entre Bertrand Russell e Paulo de Tarso? Absolutamente nenhuma. Os dois estavam sujeitos à essa mesma lei que denunciaram.

Bertrand Russell, por sua vez, prossegue em seu raciocínio e conclui que[3]:

“Serão bolcheviques ateus na Rússia que lançarão dúvidas sobre a divindade de Lênin e inferirão que não constitui pecado amar os próprios filhos. Haverá ateus do Kuomintang na China que terão reservas em relação a Sun Yat-Sem e mal demonstrarão respeito por Confúcio.”

A Graça e o Evangelho em Russell se manifestam justamente quando nos deparamos com uma história semelhante a essa que ele nos conta:

“Só em sua própria terra, entre seus parentes e em sua própria casa, é que um profeta não tem honra” (Marcos 6:4)

Serão as criaturas que lançarão dúvidas sobre o próprio Criador. Serão os discípulos que terão reservas em relação ao Mestre e mal demonstrarão respeito por Ele.

Em verdade, Ele “foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima” (Isaías 53.3).

Russell tinha consciência disso? Não sabemos. Esperamos, de fato, que sim. Mas o que sabemos é que ele demonstrou a lógica da Graça. A lógica daquilo que o salvaria da própria denúncia que fizera.

O que, em nossa vida, tem demonstrado Graça? Por que tenho falhado em acreditar naquilo que eu mesmo prego?




[1] RUSSEL, Bertrand. Por que não sou cristão e outros ensaios a respeito de religião e assuntos afins. Tradução de Ana Ban. Porto Alegre, RS: L&PM, 2013. p. 87.
[2] Idem. p. 91.
[3] Idem. p. 93.