TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

1 de fevereiro de 2017

17:00

Nos escritos do Novo Testamento o termo hosiótês[1] aparece apenas duas vezes. Primeiro em Lucas 1.75, que expressa a maneira como o homem deveria adorar a Iahweh todos os dias, desfrutando de sua proteção e, mais tarde, em Efésios 2.24, para descrever a nova maneira de viver criada por Deus à sua semelhança.

Voltando-se para sua raiz, hâsid, encontramos um uso maior que pode nos ajudar a compreender o conceito estabelecido pelos primeiros cristãos.

Hosiê é usado oito vezes. Embora nenhum dos casos o uso vétero-testamentário mais comum se repete (“congregação dos santos”), por seis vezes hâsid refere-se à pessoa de Jesus, o deus encarnado.
Atos 2.27 e 13.35 citam Salmos 16.10. No Salmo, Davi faz uma prece a Iahweh, clamando por proteção. Ele declara que infelizes são os que adoram outros deuses e que a herança, ou seja, o que ele tem de mais precioso na vida, é o próprio Iahweh que o aconselha, ensina e está sempre ao seu lado. Nele Davi encontra plenitude. Uma observação interessante é que o salmista diz que os santos (qadosh) são notáveis e que com ele desfruta do prazer de ser o hâsid. A LXX respeita a dinâmica no uso dos termos fazendo uso de hagios e hosiê, nessa ordem.

Isso aponta mais uma vez o fato de que o uso da expressão hosiê é geralmente personificado. Davi é O Piedoso de Iahweh (ênfase no sentido de posse) que venceria a morte e não conheceria a cova, não seria destruído. Essa expressão foi reivindicada a Cristo, enquanto profecia, pelo autor de Atos[2], quando escreve que Pedro disse em seu discurso: “De fato, é a respeito dele que diz Davi” (Atos 25), apontando para o fato de que:
Jesus, o Nazareno, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele entre vós, como bem o sabeis. Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o pela mão dos ímpios. Mas Deus o ressuscitou, libertando-o das angustias do Hades, pois não era possível que ele fosse retido em seu poder.” [grifos nossos] (Atos 2.22-24)[3]

Essas três prerrogativas: (a) ser aprovado por Iahweh; (b) ser o meio pelo qual Iahweh opera para proporcionar salvação; e (c) ser ressuscitado por Iahweh. É o que qualifica Jesus como o único capaz de libertar os homens de sua condição de desarmonia com o divino. Esse mesmo discurso aparece em Atos 13 quando Paulo, segundo o autor de Atos, faz uma retrospectiva histórica de Israel. Ele aponta para a necessidade de um salvador capaz de interceder e intervir definitivamente pelos pecados do povo. Fazendo assim um contraste entre o hosiê e o homem incapaz de alcançar a graça de Deus. Os discursos completam: “E então, todo o que invocar o nome do Senhor, será salvo.” (Atos 2.21) e “ficai sabendo, pois, irmãos: é por ele que vos é anunciada a remissão dos pecados. Com efeito, de todas as coisas das quais não pudestes obter a justificação pela lei de Moisés, por ele é justificado todo aquele que crê.” (Atos 13.38).

No livro de Hebreus, Jesus é o sumo sacerdote, o que anula de uma vez por todas os pecados do homem. Ele é o hosiê, “inocente, imaculado, separado dos pecadores, elevado mais alto do que os céus” (7.26). Ele não precisa oferecer sacrifício para cada pecado que o homem comete, pois ele se fez sacrifício suficiente. Assim, não é a obediência da lei que torna o homem santo, pois seguir a lei gera um efeito débil, o homem é incapaz de ser hosiê.

Em Apocalipse, Jesus merece adoração:
Quem não temeria, ó Senhor, e não glorificaria o teu nome? Sim! Só tu és santo [hosiê]! Todas as nações virão prostrar-se diante de ti, pois tuas justas decisões se tornaram manifestas. (Apocalipse 15.4)

Justo és ‘Aquele-que-é e Aquele-que-era’, ó Santo, [hosiê] porque julgaste estas coisas. [...] Ouvi então que o altar dizia: “Sim, Senhor, Deus todo-poderoso, teus julgamentos são verdadeiros e justos. (Apocalipse 11.17)

Essa adoração não se dá pelo fato do cristianismo pensar que Jesus concorria enquanto divino com Iahweh, mas que ele era o próprio Deus.

Concluindo as duas últimas passagens em que a expressão hosiê aparece, são 1 Timóteo 2.8 e Tito 1.8, ambas as passagens estão relacionadas ao manuseio do logos, palavra, referindo-se aos escritos do Antigo e Novo Testamento como revelação de Iahweh. Respectivamente, para manusear a palavra o homem deveria levantar mãos santas e por sua vez ser piedoso é resultado do comprometimento com a palavra.



[1] Para a análise dos textos do Novo Testamento em grego foi utilizado a versão Bizantina dos manuscritos.
[2] Na tradição cristã Lucas é o autor do livro de Atos. “Irineu de Lyon (c. 140-203) escreve especificamente. ‘Lucas também, o companheiro de Paulo, levou adiante num livro o evangelho, como fora pregado por ele. E a declaração, talvez a mais completa de autoria lucana, que se encontra no prólogo Antimarcionita, que data de cerca de 180. A estes se acrescentam os testemunhos de Tertuliano (c. 150-220), Orígenes (185-254), Eusébio (324), Jerônimo (340-420), que recapitula esta sólida tradição da igreja.” ELLIS, E. E. The Gospel of Luke, NBC, p.41.
[3] Todas as referências aos textos do Antigo Testamento e Novo Testamento em português usam a tradução da Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 1985. BÍBLIA