Uma fé implicante

Uma fé implicante
9 de fevereiro de 2017

17:00

Nos artigos anteriores podemos perceber existe uma diferença essencial na concepção grega e cristã de piedade. Obviamente que a influência grega pode ser claramente percebida no cristianismo, o qual se utiliza de seus fundamentos para resinificar o termo a partir de seus fundamentos, sem abandonar a perspectiva da cultura judaica.

Em ambos os casos a piedade é uma atitude que busca corresponder ao divino. Ela torna-se inútil se buscada com a motivação de medo ou pelo desejo de encontrar a graça divina. Além disso, ao mesmo tempo em que a graça não é a obediência das leis naturais ou das ordens de um deus, ela abrange submissão.

Uma relação que não pode passar despercebida, tanto nos discursos de Pedro e Paulo em Atos, quanto no diálogo de Sócrates com Êutifron, é que a piedade é intimamente ligada à justiça que conduzia o homem à salvação de suas imperfeições e falhas. Salvação que retrata uma vida melhor após a morte, de acordo com o comportamento adequado e dentro de preceitos religiosos: “Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue melhor rumo, se eu, se vós, é segredo para todos, menos para a divindade.” (PLATÃO, 1972, p.33).

A diferença fundamental está de onde parte o esforço da piedade. No pensamento socrático a piedade é claramente uma atividade humana que não busca o favor divino, mas que o reconhece. Na perspectiva cristã o homem é incapaz de alcançar o padrão da piedade, mesmo que o reconheça através da lei. A piedade, portanto, para o cristianismo é não é um movimento humano em direção aos deuses, mas um movimento do próprio deus em direção ao homem.

Neste movimento Iahweh torna-se homem, para em sua humanidade colocar-se e apresentar-se tanto como sacerdote, quanto como sacrifício. Sendo Iahweh, perfeito em sua humanidade (Jesus, o Cristo), ele é o maior de todos os sacerdotes e o sacrifício definitivo pelos pecados, falhas, incapacidade humana de viver em harmonia com o divino. Iahweh sustenta-se em sua justiça, as falhas humanas exigem punição, e uma punição adequada.

O cristianismo se apresenta como uma religião diferenciada das demais nesse aspecto. A figura dos sacrifícios para apaziguar a divindade é algo comum em toda cultura religiosa antiga, mas no Cristianismo o próprio deus se entrega como sacrifício para reafirmar a ordem e sua autoridade sobre o cosmos, e assim reestabelecer o seu relacionamento harmônico com a humanidade. A morte e ressurreição de Jesus, na perspectiva Cristã, é uma declaração do próprio Iahweh de que ele permanece soberano.

O cristianismo também traz a noção de vida após a morte, mas, diferente da cultura grega, não só admite, como também prevê que aqueles que são feitos piedosos pela divindade, serão ressuscitados em corpo material, da mesma maneira que Jesus o foi, segundo a tradição.

Dessa feita, no cristianismo, piedade/ religiosidade:
[...] descreve aquilo que está em harmonia com a constituição divina do universo moral. Daí, é aquilo que está de acordo com a ideia geral e instintiva de “direito”, “o que é consagrado e sancionado pela lei universal e consentimento” (Passow), antes do que algo que está de acordo com algum sistema de verdade revelada. (THAYER e TMV)”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
Bíblia de Jerusalém. Nova edição rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 1985.
BURNET, John (ed.) Πλάτωνος Εὐθύφρων. 1903 Disponível em:< http://platoniki.ru/sites/default/files/library/euthypron10u.pdf >. Acesso em: 16 de dez. 2016.
COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia. São Paulo: Vida Nova, 2000
Dicionário BDB, Thayer e TMV com números Strongs
ELLIS, E. E. The Gospel of Luke, NBC
JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego. Tradução de A. M. Parreira São Paulo: Martins Fontes, 1995.
MONDOLFO, Rodolfo. Sócrates. Tradução de Lycurgo Gomes da Motta. São Paulo: Mestre Jou, 1999
PLATÃO, Êutifron, p.38, 43 Todas as citações da obra Êutifron foram retiradas da tradução de SANTOS (1993).
RAHLFS, Alfred (Ed.). Greek Old Testament, the Septuagint (LXX)
ROBINSON, Maurice A.; PIERPONT, William G. (Ed.) The Greek New Testament:
SHAPIRO, Rabi Ken. Alexandre e os Judeus Disponível em:< http://www.chabad.org.br/biblioteca/historias/hist232.html>. Acesso em: 16 de dez. 2016.

VERNAT, Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2009.


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