TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

6 de fevereiro de 2017

18:00



Moisés não abriu o mar vermelho. Esta afirmação, num primeiro momento, pode soar um pouco herética para os que, como eu, passaram praticamente a infância toda na igreja, aprendendo sobre o clássico embate entre o faraó e o líder do povo hebreu.

No entanto, de fato, Moisés não abriu o mar vermelho. E, certamente, esta afirmação afeta diretamente nossa vida cristã e a maneira como olhamos e nos relacionamos com Deus.

Alguns podem opinar que se trata de uma proposta materialista ou humanista para interpretar a história bíblica. No entanto, ao contrário dos que assim pensam, acredito que dizer que “Moisés abriu o mar vermelho” é muito mais humanista do que dizer que ele não abriu.

Erwin Lutzer, pastor norte americano, ao descrever a cena do mar aberto enquanto os israelitas ali passavam em terra seca, relembra que tudo aquilo havia sido orquestrado por Deus para que seu próprio nome fosse glorificado por meio da vida de Moisés:

"Deus, claro, estava orquestrando todo o evento. 'Fez que as rodas dos seus carros começassem a soltar-se, de forma que tinham dificuldade em conduzi-los. E os egípcios gritaram: 'Vamos fugir dos israelitas! O Senhor está lutando por eles contra o Egito'' (Êxodo 14.25). Desesperados, os egípcios se deram conta de que aquilo novamente era uma disputa entre seus deuses e o Senhor de Israel."[1]

E continua:

"Por que Deus fez isso? 'Contudo, ele os salvou por causa do seu nome, para manifestar o seu poder. Repreendeu o mar Vermelho, e este secou; ele os conduziu pelas profundezas como por um deserto' (Salmos 106. 8,9)."[2]

Moisés tinha os olhos fitos em Cristo (Hebreus 11.26), mesmo não o conhecendo pessoalmente. À semelhança do líder hebreu, apesar de não conhecermos o Mestre aos olhos humanos, o conhecemos pela Graça, pelo que não podemos perder o foco de nossos esforços: somos meios pelos quais Deus opera grandes coisas para a glória Dele.

Infelizmente, ao lermos a “história de Moisés” o encaramos como protagonista de um dos maiores eventos da história humana. Acredito que essa atribuição representa uma interpretação não sistematizada com as Escrituras.

A história não é de Moisés, mas é de como um Deus tão poderoso e infinito se inclinou, indefeso, como um bebê, para reconciliar uma relação que havia sido quebrada e traída pelo ser humano. A abertura do mar, como a própria lógica do Evangelho, é o caminho aberto por Deus para a salvação do seu povo, o que ocorre por meio da fé (Hebreus 11.29).

De fato, Moisés não abriu o mar vermelho, porque quando ele ergueu a mão sobre o mar, o "Senhor afastou o mar e o tornou em terra seca...” (Êxodo 14.21).

Creio que precisamos, urgentemente, retornar nossos corações à pessoa de Cristo e reconhecê-lo como o protagonista da história humana.




[1]  LUTZER, Erwin W. Mais perto de Deus: lições da vida de Moisés; [tradução Onofre Muniz]. – São Paulo: Editora Vida, 2013. p. 94.
[2]  Idem. p. 95