TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

19 de janeiro de 2017

17:00

Foi a morte de Sócrates e seu comportamento que deu novos rumos à filosofia. Um filósofo que se apresentou, segundo os relatos de seus contemporâneos, como inoportuno. Diante da morte, diz não à sobrevivência em favor dos seus valores. Ele morre pelo princípio de legitimidade da civilização ateniense e da credibilidade dos seus ensinos. Colocou seus ideais por mais estima que sua própria vida.
Sócrates ensinava aos jovens o descuido da vida pública e dos problemas da cidade, e somente a preocupação por sua própria vida interior; e como, ao contrário, o estado considerava a participação nas assembleias e nas magistraturas um dever dos cidadãos e não somente um direito, a influência negativa de Sócrates fazia que este parecesse um corruptor. E, finalmente, dado o vínculo entre a vida da polis e a religião da cidade, Sócrates, que desejava substituir esta última por outra fé, transformava-se, inegavelmente, em réu de impiedade. (MONDOLFO, 1999, p.29).

Mesmo entendendo que suicídio era errado, ele advogou por um princípio superior. Deslocando a ética, fez que ela não fosse mais a preservação da vida, nem um meio para o viver bem, mas um bem coletivo social. Por isso a preservação de sua própria vida não é o princípio superior, mas a vida do coletivo. Essa postura evidencia o caráter religioso de sua ética e filosofia. Pois, para ele, assim como o cosmos serve a uma lei universal que faz o natural acontecer, os princípios éticos regem o cosmos social. E, se assim for, atacar os princípios éticos é atacar os deuses.

A nova ética e fé pregada por Sócrates o condenou à morte, mas também o eternizou, “trazendo a filosofia dos céus para a Terra”, como afirma Cícero.

Sócrates sai do Liceu, lugar onde comumente se encontrava, e dirige-se para o Pórtico do Rei, a fim de responder a uma acusação que lhe haviam feito. A acusação era de que ele corrompia os jovens com a construção de novos deuses. Dessa feita encontra-se com Êutifron, um conhecedor religioso que processara seu pai por homicídio. Sócrates toma esta situação incomum como oportunidade para buscar juntamente com Êutifron uma definição do que seria piedade.

Na obra Êutifron, algumas definições são apresentadas por Êutifron. A Primeira delas é que piedade “é perseguir os que cometem injustiças [...] e não os perseguir é que é impiedade.” (PLATÃO, Êutifron, p.36)[1]. Entretanto essa resposta não satisfaz a Sócrates, pois foca em um aspecto prático e não serve de crivo para outras questões. É então que vem a segunda e a terceira definição de Êutifron: “É então a piedade o que é agradável aos deuses; o que não é agradável é a impiedade [...] é o que todos os deuses amam” (PLATÃO, Êutifron, p.38, 43).

Dentro dessas definições, Sócrates pergunta como se pode aprender a piedade na relação com os deuses se eles mesmos discordam entre si sobre o que é justo e o que é ímpio. Para ele precisa existir uma medida que não foque nas ações, mas aponte para a verdadeira essência. Isso porque, os “deuses combatem entre si, que mantêm diferenças e se odeiam, uns aos outros. [Mas] Nenhum dos deuses e dos homens se atreve a sustentar que não se deva castigar a injustiça.” (PLATÃO, Êutifron, p.41). Assim, mesmo sendo os deuses inconstantes, a piedade apresenta-se estável, e deve encontrar sentido em si mesma. (PLATÃO, Êutifron, p.45).

Sócrates procura mostrar que os argumentos de Êutifron apresentam-se como um labirinto, evocando a figura de Dédalo. Labirinto esse que eles nunca seriam capazes de sair se continuassem insistindo em definir a piedade como uma ação, ou de maneira pragmática, sem encontrar sua essência. Ele estabelece então a ideia de gratidão em contraste com a ideia de castigo e medo.

A quarta resposta é que a piedade faz parte daquilo que é justo. Mas a que parte da justiça pertence a piedade? Êutifron responde que “É a parte da justiça que diz respeito aos cuidados com os deuses” e mais uma vez é questionado:
Diz-me, meu caro, e o serviço prestado aos deuses, com vista à realização de qualquer obra, será também um serviço? É evidente que sabes qual é, pois dizes saber mais que os homens acerca das mais belas coisas divinas. [...] Diz-me, por Zeus, qual poderá ser essa obra perfeitamente bela que os deuses realizariam, usando-nos como servidores? (PLATÃO, Êutifron, p.52)

Por último, Êutifron tenta ligar a piedade à prática religiosa em si, ao dizer que “a tarefa maior é como se pode com rigor aprender todas estas coisas. Digo-te simplesmente: que alguém que saiba fazer e dizer [quais] as coisas que são agradáveis aos deuses, rezando e sacrificando, realiza atos piedosos, que salvam as famílias e as cidades; e as coisas contrárias às que agradam são ímpias: subvertem e destroem tudo.” (PLATÃO, Êutifron, p.52). Entretanto essa resposta também não satisfaz a Sócrates, pois para ele se assemelha à anterior, que barganha com os deuses como se eles necessitassem de algo que o homem possa dá-los. Ele retoma, assim, a figura do Dédalo.

De maneira geral, esse diálogo aporético trata-se de saber se aquilo que é correto deriva da vontade de um deus ou se por ser correto é desejado pela divindade. A importância dessa pergunta evidencia-se nas profundas implicações éticas e teológicas que surgem das respectivas respostas. Entretanto os interlocutores não conseguem definir satisfatoriamente a piedade e sua relação com a justiça e, por fim, Êutifron desiste do discurso.

Assim, embora não cheguemos claramente uma definição encontramos uma pista do que é piedade para Sócrates. Seu esforço inicial parece estar em defender que o conceito de piedade não pode submeter-se a uma atitude ou atividade, seja humana ou divina, mas precisa reconhecer um sentido superior às ações. Sendo assim, a piedade não é pragmática.

A piedade não está ligada também a uma necessidade dos deuses, algo que se possa fazer por eles. Uma vez que eles não precisam do homem, o medo do castigo ou o desejo de encontrar graça não pode ser o motor da piedade. Embora ele reconheça o temor como elemento necessário para o desenvolvimento da piedade, para ele o temor só produz piedade quando não é estabelecido no medo do castigo. Ser piedoso não é, portanto, uma imposição, ou mesmo um instrumento para se alcançar a graça dos deuses.

Definir piedade/ religiosidade sob um aspecto pragmático ou mesmo sob aspectos cerimoniais religiosos é entregar-se a um labirinto de raciocínios que afastarão qualquer que seja o pensador de seu real sentido.

Nesta argumentação Sócrates aponta dois caminhos: (a) concordando com os poemas religiosos de que os deuses entram em desacordo, o que faria com que o conceito de piedade estivesse acima dos deuses; ou (b) concordar que as deidades precisam ser necessariamente harmônicas para sustentar valores universais, o que naturalmente se distanciaria das crenças tradicionais.

O mais provável é que Sócrates tivesse preferência pela segunda opção, uma vez que tinha dificuldade de aceitar os poemas, como ele mesmo afirma:
Não será essa, Êutifron, a razão pela qual eu sou acusado: porque, sempre que alguém diz tais coisas sobre os deuses, eu as aceito com dificuldade? Parece-me que é por causa disso que alguém dirá que eu erro. Contudo, se a ti te parecem bem estas coisas que tão bem conheces, é necessário, creio eu, que concordemos agora. Pois que direi eu, que confesso nada saber sobre elas? Mas, diz-me, pelo deus da amizade, crês tu que realmente isto se passou assim? (PLATÃO, Êutifron, p.37)

Sendo assim, o que mais perto se aproximou de definir piedade em Êutifron foi a ideia de reverência aos deuses, uma atitude em gratidão diante do reconhecimento de quem eles são. Sobre isso ele diz:
Não me parece que seja: onde há o temor, haja também o respeito. Pois me parece que muitos, temem não doenças como a pobreza e muitas outras coisas que tais, parece que temem, de fato, mas não respeitam em nada aquilo que temem. [...]Mas, onde há respeito, há também o temor. Pois existe alguém que respeitando qualquer coisa ou tendo vergonha dela, não tenha detestado e ao mesmo tempo temido a reputação de baixeza? (PLATÃO, Êutifron, p.45)

As duas principais palavras no diálogo entre Sócrates e Êutifron são eusébia e hosiótês[2]. Esses termos são utilizados de maneira intercambiáveis, estabelecendo-se como sinônimos. Enquanto eusébia deve ser entendido como aquilo que é estabelecido pelos deuses, o tradicional acordo, hosiótês implica em justiça, que não olha necessariamente para o que é tradicional, mas para o que é certo em si mesmo.

Hosiê é a forma de palavra mais antiga para se designar “santo”. Representava aquilo que estava de acordo com a direção e providência divinas. Mais especialmente pode significar obrigações impostas sobre homens em rituais e cerimônias, em resumo, o que era religioso. O adjetivo é encontrado de Platão em diante como hosiótês, cujo sentido geral é de sancionado ou permitido pela lei divina ou natural. Quando se aplica a pessoas, refere-se a piedoso, puro, limpo, religiosos. (COENEN; BROWN, 2000, p.2270)

Embora sem uma definição clara, no diálogo com Êutifron evidencia-se que o temor aos deuses que leva a hosiótês, piedade, para Sócrates, não é o medo de alguém que o subjuga, mas o medo de não corresponder a quem realmente se é. Muito além de se perguntar o que é piedade, o diálogo leva o leitor a se questionar quem são os deuses, ou quem é o deus a quem ele se refere no singular e dedica toda a sua devoção e obediência: “Atenienses, eu vos sou reconhecido e vos quero bem, mas obedecerei antes ao deus que a vós; enquanto tiver alento e puder fazê-lo, jamais deixarei de filosofar [...]” (PLATÃO, 1972, p.21).  E ainda diz: “Tais são as ordens que o deus me deu, ficai certos. E eu acredito que jamais aconteceu à cidade maior bem que a minha obediência ao deus” (PLATÃO, 1972, p.21).




[1] Todas as citações da obra Êutifron foram retiradas da tradução de SANTOS (1993).
[2] As observações do grego clássico foram feitas a partir da ed. John Burnet, 1903. Disponível em [http://platoniki.ru/sites/default/files/library/euthypron10u.pdf] Data do acesso: 20/12/2016.