Uma fé implicante

Uma fé implicante
25 de janeiro de 2017

17:00

Hosiótês e sua raiz têm dez ocorrências nos escritos do Novo Testamento, escritos estes, de onde, historicamente, nasce a visão cristã de mundo. Entretanto para analisarmos o conceito do termo no uso dos autores neotestamentários, é necessário observar cuidadosamente seu berço judaico, o qual necessariamente os influencia.

Alexandre, o Grande, fez um desvio para o sul onde conquistou Tiro e depois o Egito. Essa foi a época em que sua campanha contra a Pérsia encontrou-se com os judeus. Segundo Shapiro isso está registrado tanto no Talmud (Yoma 69a) quanto no Livro da Antiguidade do historiador judeu Josephus (XI, 321-47):
Em ambas as narrativas o Sumo Sacerdote do Templo em Jerusalém, temendo que Alexandre destruísse a cidade, saiu para encontrá-lo antes que ele chegasse à cidade. A narrativa descreve como Alexandre, ao avistar o Sumo Sacerdote, desmontou e inclinou-se perante ele. (Alexandre raramente se curvava para alguém). Na narrativa de Josephus, quando seu general Parmerio lhe pediu para explicar sua atitude, Alexandre respondeu: ‘Eu não me inclinei perante ele, mas perante aquele D’us que o honrou com o Sumo Sacerdócio; pois eu vi esta mesma pessoa num sonho, com esta mesma roupa.’ (SHAPIRO)

Alexandre por isso poupou Jerusalém, iniciando assim o relacionamento complexo e intrigante. “O idioma grego era considerado tão belo que o Talmud por vezes o chamou de mais bonita de todas as linguagens e os Rabinos decretaram até que um Rolo da Torá fosse escrito em grego.” (SHAPIRO). Esse relacionamento também levou os gregos a serem o primeiro povo a traduzir a Bíblia em outro idioma. O Rei Ptolomeu II (250 a.C.) forçou 70 Rabinos a traduzirem a Bíblia hebraica em grego, conhecida como Septuaginta, que significa “setenta” em grego. Esse foi, muito provavelmente, o texto utilizado pelos escritores do Novo Testamento.

Na LXX (Septuaginta), o termo hosiótês foi predominantemente usado como tradução do hebraico hâsid, que denota o homem que aceita de boa mente as obrigações que decorrem do relacionamento entre o povo e Deus, “o leal, o piedoso” (Koehler, Baumgartner, p.319 in COENEN; BROWN, 2000, p.2270). A palavra se relaciona com hesed “misericórdia”, que significa comportamento correto segundo a aliança, a solidariedade que os participantes da aliança deviam uns aos outros. No caso do Antigo Testamento a aliança foi feita da parte fiel com a parte infiel – aí está a misericórdia – que a parte leal manter-se ia fiel, apesar da infidelidade da outra parte. A palavra hâsid[1] parece seguir a mesma direção.

Embora Deuteronômio 33.8 (a ocorrência mais antiga) a descreva como a lealdade encontrada entre os levitas[2] e em outras ocorrências é usada para descrever a congregação reunida para o culto em adoração a Deus. Vê-se que mesmo no contexto da rigorosa observância da lei, o povo segui hâsid por causa da atitude perdoadora de Iahweh diante dos seus pecados. O termo é usado ainda duas vezes para descrever o próprio Deus.




[1] Além do DITB foi utilizado o Dicionário BDB, Thayer e TMV com números Strongs para desenvolver um estudo a partir do método indutivo de comparação entre os textos que utilizaram a mesma expressão. Esse método foi utilizado também para análise dos textos do Novo Testamento. A metodologia exegética utilizada corresponde à mesma apresentada por Gordon D. Fee e Douglas Stuart no livro Manual de Exegese Bíblica – Antigo e Novo Testamento. Editora Vida Nova: São Paulo – SP, 2008.
[2] Povo da tribo de Levi, um dos 12 filhos de Jacó, que formavam  as 12 tribos de Israel. Na tradição Judaica Deus fez uma promessa a Rebeca, esposa de Jacó, sobre as duas nações que nasceriam do seu ventre. Nascem então Esaú e Jacó, sendo que de seus descendentes saíram os edomitas e os israelitas, respectivamente.


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