Uma fé implicante

Uma fé implicante
22 de dezembro de 2016

15:44
Como podemos ver nos demais artigos da série, as visões sobre Jesus são as mais diversas possíveis. Apesar da vasta gama de opiniões, temos que considerar o que a Bíblia fala sobre ele. Será que este livro seria realmente digno de confiança ou mais um relato mítico da história? Uma mulher virgem grávida, um homem perfeito e milagres... Isto tudo é mesmo verdade?

A primeira barreira quanto à aceitação de um Cristo bíblico é a desconfiança quanto ao Novo Testamento. Será que ele é confiável mesmo tendo sido escrito tanto tempo depois dos fatos narrados? Essa é uma questão que ocupa páginas de inúmeros livros. Não será possível discorrer sobre o assunto de forma completa, pois o espaço aqui é limitado. 

Um dos argumentos a favor da historicidade das Escrituras é seu amplo número de cópias existentes. Ainda que não tenhamos escritos originais, o que também acontece com grande parte da literatura clássica, podemos considerar o novo testamento confiável. Ele apresenta pelo menos 24970 manuscritos documentados, em uma data muito próxima dos fatos ocorridos, a partir de 114 d.C. O documento antigo que desfruta de maior prestígio quanto à sua originalidade é a Ilíada, de Homero, com 643 cópias a partir de 400 a.C., ou seja, 400 anos depois da data de composição original [1]. O pequeno tempo existente entre as produções originais e até mesmo as cópias em relação aos acontecimentos, apontam para a veracidade dos fatos descritos, pois não houve tempo para que se acumulassem mitos e lendas distorcendo os fatos [2].

Muito tem se levantado ultimamente sobre os livros não canônicos, ou seja, que não são reconhecidos pela igreja como divinamente inspirados, também conhecidos como apócrifos. Estes livros, segundo alguns autores, teriam sido escondidos pela igreja por não conter a história “padrão” de Jesus e assim deixar o prestígio que ela teria pra trás. Norman Geisler e William Nix, no seu livro “A general introduction to the bible” traz os seguintes argumentos contra o status canônico desses livros: “(1) Nenhum deles desfrutou mais do que apenas reconhecimento temporário ou local; (2) a maioria deles nunca teve mais do que um mero status semicanônico, sendo anexados a diversos manuscritos ou mencionados em listas de conteúdo; (3) nenhum dos principais cânones em nenhum concílio os incluiu como livros inspirados do Novo Testamento; (4) a aceitação limitada que a maioria desses livros desfrutou pode-se atribuir ao fato de terem sido apensos a referências nos livros canônicos, por causa de sua suposta autoria apostólica. ”[3]

Pensando na história narrada em si mesma, o primeiro fato na linha cronológica que tem relevância na vida de Cristo é o seu próprio nascimento. Será que de fato ele nasceu de uma virgem? O vídeo a favor do aborto intitulado “Meu Corpo, Minhas Regras”, fez justamente esse questionamento [4]. Não seria um erro de tradução que ocorreu ao traduzir do original hebraico onde a palavra que significa moça por virgem no grego (Is 7:14)? Não seria apenas mais um relato mítico? A acusação seria que o termo traduzido do hebraico para o grego teria sido substituído de “jovem” para “virgem”. De fato, no original não se apresenta a palavra “virgem”, mas a melhor tradução do hebraico seria “jovem”. Porém, palavra grega traduzida como “virgem” também indica o significado de “jovem”, que é até mais usual que “virgem”. E o nascimento virginal? Marcelo Berti, em uma análise desse termo indica que ambos significados são possíveis para os originais e que portanto Mateus não cometeu um erro. [5] O contexto histórico demonstra, que a palavra significa “jovem virgem em idade de casamento”, e sem dúvida é uma virgem que está grávida. [6] Portanto, para um pensamento hebraico é como se não houvesse distinção entre jovem e virgem. Esse fato demonstra que o nascimento de Cristo reforça a sua natureza divina, uma vez que sua entrada na linha do tempo é única.

Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta:

"A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel" que significa "Deus conosco". Mateus 1:22,23

A vida de Jesus também é um ponto de bastante disputa. Os cristãos a todo momento afirmam que ele nunca errou. Ele não teria desobedecido as leis dos Judeus? Algumas acusações estão presentes em Marcos 2:1-3:6. As acusações eram de blasfêmia por ele perdoar os pecados, de contato com os impuros e de não praticar o jejum com os fariseus. Jesus, entretanto, se defende das acusações dizendo que realmente desobedecera às tradições humanas, pois estas minavam a verdadeira interpretação e propósito da lei de Deus [7]. Essa perfeição moral não era apenas um elemento que simplesmente reforça sua divindade, mas sem ela Jesus não poderia ser Deus, como bem coloca Henry Morris, “Se o próprio Deus, encarnado em seu único Filho, não pudesse estar à altura de sua própria santidade, seria totalmente inútil ir a qualquer outro lugar do Universo em busca de sentido e salvação”[8]. O próprio David Strauss, ferrenho adversário do sobrenaturalismo bíblico fala o seguinte: “Esse Cristo [...] é histórico, não é um mito; é um indivíduo, não apenas um símbolo [...]. Ele continua sendo o mais elevado modelo de religião que podemos imaginar; e não há piedade perfeita sem que ele esteja presente no coração”.[9]

“pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado” Hebreus 4:15

Outro elemento bastante debatido é a questão dos milagres. Será que eles não foram apenas elementos mágicos inseridos para dar a impressão de que Jesus era Deus? Uma vez que esses fenômenos sobrenaturais não podem ser explicados cientificamente, por que deveríamos acreditar neles? Timothy Keller no livro “Fé na era do ceticismo” demonstra que este pensamento deriva de uma profunda crença de que ciência é suficiente para explicar toda a realidade ou crê que Deus não pode ser provado, portanto não existe. “Para ter certeza de que milagres não podem ocorrer, você precisaria estar absolutamente convencido de que Deus não existe, e isso é um elemento de fé. A existência de Deus não pode ser provada ou desacreditada cientificamente. ” [10]

O nascimento e a própria vida atestam uma entrada triunfal de Deus na história. Até agora, você tem mais motivos para acreditar ou duvidar que a bíblia de fato descreveu um Jesus divino? Pense nisso. No próximo artigo termino de apresentar esse Jesus divino. E faço uma proposição ao final. Aguarde... 
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[1] McDowell, Josh. “Novas evidências que demandam um veredito: evidência I e II”.  São Paulo-SP: Hagnos, 2013, p. 136,142-143 .
[2] Moreland, J. P., “Racionalidade da fé cristã: argumento para sua defesa”. São Paulo- SP: Hagnos, 2013, p.203.
[3] Apud McDowell, Josh. “Novas evidências que demandam um veredito: evidência I e II”.  São Paulo-SP: Hagnos, 2013, p. 119.
[4] “Meu Corpo, Minhas Regras - Olmo e A Gaivota / My Body, My Rules - Olmo and The Seagull”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=CafzeA-9Qz8>. Acesso em: 20 de dezembro de 2016;
[5]“É o nascimento virginal de cristo resultado de um erro de tradução?”. disponível em: <https://marceloberti.wordpress.com/2015/11/13/e-o-nascimento-virginal-de-cristo-resultado-de-um-problema-de-traducao/ > Acesso em: 6 de dezembro de 2016;
[6] “Novas evidências que demandam um veredito: evidência I e II”, p.555.
[7] “Novas evidências que demandam um veredito: evidência I e II”, p.582.
[8] Apud McDowell, Josh. “Novas evidências que demandam um veredito: evidência I e II”.  São Paulo-SP: Hagnos, 2013, p. 585.
[9] Apud McDowell, Josh. “Novas evidências que demandam um veredito: evidência I e II”.  São Paulo-SP: Hagnos, 2013, p. 585-586.
[10] Keller, Timothy, “A fé na era do Ceticismo: como a razão explica Deus”. São Paulo- SP: Vida Nova, 2015, p. 73.

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