TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

13 de dezembro de 2016

17:30

A era em que vivemos é profundamente influenciada pelos ditos da psicologia. Ela influencia desde campos como educação e até o marketing de um novo produto no mercado. Não é raro vermos Jesus ser associado a alguém que entendia o coração partido das pessoas ao seu redor, trazendo cura afetiva e física. Muitos o chamam de psicólogo e até mesmo médico por conta de seus méritos em transformar vidas por onde passava. 

Cristo entendia as pessoas, “estava preparado para escutar a mulher oprimida da época, os doentes e até mesmo as minorias”. Mas será que a missão de Jesus era somente trazer alívio para a alma e estabelecer um bem-estar, um equilíbrio para o homem viver? Ele veio para fazer o homem entender o quão valioso é para Deus e enche-lo de autoconfiança? A sua maior contribuição foi trazer bem-estar aos aflitos?

Os milagres seriam um ponto que, por exemplo, poderíamos considerá-lo com esse caráter de médico/psicólogo? Podemos observar que Jesus livrou muitos dos que o seguiam da dor e do sofrimento, como é o caso da mulher que sofria de hemorragia, como aponta o quinto capítulo do evangelho de Marcos. 

“E estava ali certa mulher que havia doze anos vinha sofrendo de uma hemorragia. Ela padecera muito sob o cuidado de vários médicos e gastara tudo o que tinha, mas, em vez de melhorar, piorava. Quando ouviu falar de Jesus, chegou-se por trás dele, no meio da multidão, e tocou em seu manto, porque pensava: "Se eu tão-somente tocar em seu manto, ficarei curada". Imediatamente cessou sua hemorragia e ela sentiu em seu corpo que estava livre do seu sofrimento. Então ele lhe disse: "Filha, a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofrimento".” Marcos 5:25-29,34

Nesse momento Jesus parece se mostrar como um médico, assim como um psicólogo que a livra do sofrimento, relacionado não somente à condição de enfermidade em si, mas também por conta da rejeição social que recaía sobre a mulher. No afamado livro de Mark Baker, “Jesus, o maior psicólogo que já existiu”, vemos essa visão que foi colocado em voga acima:

“[Jesus] não veio no mundo para condená-lo. Ele não queria que as pessoas se sentissem mal a respeito de si mesmas; em vez disso, desejava que elas se sentissem amadas por Deus.”[1]

Lendo o trecho do livro de Baker e ao mesmo tempo fazendo uma leitura isolada do acontecimento de Marcos 5, podemos pensar que o propósito de Jesus era trazer bem-estar a todos àqueles com quem teve contato. Mas podemos questionar um primeiro ponto: será que Jesus realmente não veio ao mundo para condená-lo? O texto bíblico é enfático ao dizer que aqueles que anunciam a palavra de Deus são como fragrância de conhecimento, funcionando como aroma de morte para os que estão perecendo e aroma de vida para os salvos (2Cor 2:14-16). Ou seja, as palavras de Jesus servem para o consolo daqueles que o aceitam, e renovam suas esperanças, mas o fato de não as aceitar faz com que o homem permaneça no estado de condenação, que é reforçada pela mesma pregação. 

O segundo ponto importante a ser abordado é o fato de Jesus não tratar as pessoas como vítimas, mas apontar para seus pecados e a necessidade de redenção. Vejamos o caso da mulher samaritana em João 4. Jesus nesse episódio Ele sabe que a mulher vive como casada com um homem que não é o seu marido, no entanto não se preocupa em estar sendo “indelicado” com a mulher, mas aponta para sua fraqueza e para sua necessidade de salvação, uma vez que é pecadora (Jo 4:14,17,18).

O terceiro e último ponto que podemos discutir é o propósito dos milagres de Jesus. No livro “Foco e desenvolvimento no Novo Testamento”, Carlos Osvaldo coloca os episódios em que Jesus acalma o mar, expulsa demônios e cura um paralítico na seção denominada “a Manifestação do poder do Rei como sua autenticidade perante Israel” [2]. Os milagres foram feitos para autenticar a pessoa de Jesus como Messias, como bem indica o seguinte comentário de Denis Monteiro:

Então, os milagres feitos por Moisés e Josué, Elias e Eliseu, e Jesus e os apóstolos eram para dar uma introdução às novas revelações, sinal de autenticidade dos mensageiros e, assim, os milagres chamavam a atenção para as novas revelações. [3]

Além disso, os milagres apontam para um reino escatológico [4] em que seremos curados e restaurados, transformados naquilo que deveríamos ser. Por hora, temos que conviver com o pecado que nos assedia dia a dia e um sistema mundano que nos leva ao sofrimento, ainda que possamos ter paz com e em Cristo.

“Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles.” 2 Coríntios 4:16,17

No final das contas, Jesus é sim um médico, mas um médico divino, que traz cura à enfermidade mais profunda, que é a separação eterna do homem com Deus. À mulher samaritana Ele oferece água viva, que é solução não para os sofrimentos momentâneos dela, mas que a leva a desfrutar de um relacionamento com Deus e à vida eterna. Jesus veio não para trazer conforto imediato ou realizar os desejos e “necessidades” das pessoas.

“Mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis.” 1 Pedro 4:13

Dos apóstolos de cristo, o que teve a morte mais branda foi aquele exilado em uma ilha. Entre os demais houve decapitação, crucificação, gente serrada ao meio, esquartejamento, entre outras atrocidades. Essa máxima do cristianismo foi muito bem sintetizada por C. S. Lewis.

“Esse princípio rege a vida inteira, do começo ao fim. Entregue-se, pois assim você encontrará a si mesmo. Perca a sua vida para salvá-la. Submeta-se à morte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu corpo inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadeiramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.” [5]

O evangelho da cura pura e simples e da autoajuda nada tem a ver com o evangelho verdadeiro, que leva ao reconhecimento da nossa podridão, arrependimento e à morte dos nossos desejos. Nenhuma dessas coisas tem a ver com autoajuda, pois não depende de nós, mas do próprio Deus. Isso tudo é muito doloroso, mas é a única forma de termos uma vida “curada” do que realmente importa.

Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. Mateus 9:12,13
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[1] Baker, Mark W. “Jesus, o maior psicólogo que já existiu.”. Sextante, 2005;
[2] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. “Foco & desenvolvimento no novo testamento”. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 43;
[3] Bereianos, Os milagres e seus propósitos. Disponível em: <http://bereianos.blogspot.com.br/2014/04/os-milagres-e-seus-propositos_15.html>. Acesso em: 14 de setembro de 2016;
[4] Monergismo, Milagres. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/pentecostalismo/milagres.htm>. Acesso em: 14 de setembro de 2016;
[5] Lewis, C. S., “Cristianismo puro e simples” – 3ª ed. São Paulo- SP: WMF Martins Fontes, 2009, p. 300.