Uma fé implicante

Uma fé implicante
29 de dezembro de 2016

12:19

As histórias bíblicas falam que Jesus era Deus, morreu e ressuscitou ao terceiro dia. Parece bem pretenciosa a autoafirmação de ser Deus. Alguém ressuscitar depois de tanto tempo também parece pouco plausível. E aliás, por que ele tinha que morrer? Não seria mais fácil simplesmente perdoar os pecados do mundo todo? Ainda mais, ele fundou uma religião bastante exclusivista, que diz que só quem crer nele será salvo. Isso não é um problema, que poderia trazer divisão no mundo tão plural em que vivemos?

Jesus acreditava piamente que era Deus. No artigo anterior vimos que há evidências de que ele era alguém realmente especial. Ainda fala-se que ele era homem e Deus ao mesmo tempo. Mas por que os cristãos insistem tanto nessa ideia? Por que ele não poderia ser simplesmente um homem iluminado? A própria bíblia combate veementemente qualquer ideia de que ele seria somente algum dos dois: homem ou Deus, ou que existisse qualquer separação entre essas naturezas, especialmente na carta primeira de João (1Jo 4:1-3). O perdão de pecados que ele afirmou trazer só seria possível caso as duas naturezas estivessem presentes, como mesmo afirma C.S. Lewis:

“Cristo entregou-se à submissão e à humilhação perfeitas: perfeitas porque era Deus; submissão e humilhação porque era um homem. Ora, a crença dos cristãos está em que, se partilharmos de algum modo da humildade e do sofrimento de Cristo, partilharemos também do seu triunfo sobre a morte, encontraremos nova vida após a morte e nela seremos criaturas perfeitas e perfeitamente felizes. Isso implica bem mais que tentar seguir seus ensinamentos.” [1] 

As duas naturezas de Jesus são, portanto, complementares, uma vez que as duas isoladamente não seriam suficientes para cumprir o propósito da sua vinda, isto é, trazer redenção ao homem.

Mas por que ele, que se dizia Deus, simplesmente não perdoou a todos? Um Deus de amor perdoaria todos. Um Deus que requer esse tipo de sacrifício mais parece um Deus que se alegra com o sofrimento. Vamos considerar o que as Escrituras têm a dizer.

Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou juntamente com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz.

Colossenses 2:13,14

Paulo fala no texto acima que tínhamos uma dívida com Deus, pois estávamos em desacordo com suas leis. Entretanto, Deus ofereceu seu próprio filho para pagar o preço. Deus, sendo justo, não pode simplesmente anistiar alguém. Mas como Deus de amor, Ele mesmo providencia o resgate que nos livra do escrito de dívida. Se Ele simplesmente tivesse morrido, sem nenhum propósito, isso seria um desperdício. Se não morresse por nossos pecados, seria mais um mestre farsante ou um tolo que acreditava nas próprias mentiras.

“Por isso, a cruz não é meramente um exemplo belo de amor sacrificial. Desperdiçar a vida à toa não é nada admirável – é errado. A morte de Jesus só é um bom exemplo se tiver sido mais que um exemplo, se tiver sido algo absolutamente necessário para nos salvar. E foi. Por que Jesus teve de morrer para nos perdoar? Havia uma dívida a ser paga – o próprio Deus a pagou. Havia um castigo a suportar – o próprio Deus a suportou. O perdão é sempre uma forma de sofrimento oneroso.” [2]

Outro evento bastante discutido sobre a vida de Jesus foi sua ressurreição. Esse fato não teria sido mais uma farsa inventada por seus discípulos para propagandear a nova religião que estava surgindo? J.P. Moreland afirma que somente discípulos de um Jesus realmente ressurreto teriam suas forças restauradas para pregar as palavras do seu mestre. Afinal de contas, quem morreria por uma mentira? A maioria dos apóstolos morreu de forma brutal. Por que levar tal mentira às últimas consequências?

“[...] os seus seguidores estavam desanimados e deprimidos. Não possuíam mais a confiança de que Jesus tivesse sido enviado por Deus, porque acreditavam que qualquer um que fosse crucificado seria maldito. Também talvez tivessem sido ensinados que Deus não permitiria que seu Messias sofresse a morte. Sendo assim, eles se dispersaram. O movimento de Jesus estava literalmente paralisado. Então, após um pequeno período de tempo, nós os vemos abandonando seus afazeres, ajuntando-se novamente e dedicando-se a espalhar uma mensagem muito específica: Jesus Cristo era o Messias de Deus, que morreu sobre a cruz, voltou a viver e por eles fora visto vivo. Estavam dispostos a gastar o resto de suas vidas proclamando isso, sem nenhum lucro em termos humanos. Não se tratava de ter uma mansão que os aguardasse no Mediterrâneo. Eles enfrentaram uma vida de dificuldades. Muitas vezes passaram fome, dormiram expostos ao relento, foram ridicularizados, açoitados, lançados na prisão. Finalmente a maioria deles foi executada de forma terrível. Para quê? Por boas intenções? Não. Porque eles estavam convictos, sem a mínima dúvida, de que tinham visto Jesus Cristo vivo depois de sua morte. Não podemos explicar como esse grupo específico de homens inventaria essa fé específica sem que tivessem experimentado a ressurreição de Cristo. Não existe outra explicação convincente.”[3]

Não podemos simplesmente negligenciar a ressurreição e sermos indiferentes quanto a ela. A ressurreição é o fato que torna tudo aquilo que foi falado até agora verdadeiro. Sem ela não poderíamos dizer que o cristianismo é verdade, pois tudo o que foi anunciado, vivido e a própria morte de Cristo na cruz não fariam sentido, pois a ressurreição é a prova de que ele era Deus, e somente com essa identidade poderia vencer a morte.

“Mas Deus o ressuscitou dos mortos, rompendo os laços da morte, porque era impossível que a morte o retivesse.” Atos 2:24

O último problema intelectual que eu levantaria aqui é a questão do exclusivismo presente no cristianismo. O cristianismo afirma que Jesus é o único caminho para a redenção do homem. Contudo, nem todas as religiões acreditam nisso. Essa reivindicação de exclusividade não parece ser arrogante por parte dos cristãos? O próprio Jesus afirma esse exclusivismo.

“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” João 14.6

O que falar do exclusivismo? Vivemos em um mundo tão plural, com tantas religiões, culturas e filosofias, porque afirmar que somente Jesus salva? Bem, primeiramente creio que o cristianismo é a fé que melhor lida com a complexidade da vida e melhor descreve o homem tal qual ele é, imagem e semelhança de Deus. Ainda assim pecador e, portanto, mal e carente de salvação. Em segundo lugar, a própria afirmação de que o exclusivismo está errado possui uma crença religiosa subjacente em que se crê que Deus é apenas amor e não poderia condenar pessoas que adotam outras crenças.. Mas isso em si não é uma crença? Por que ela é superior à fé cristã? Timothy Keller explica muito bem essa fé subliminar do ceticismo.

“Os céticos acreditam que quaisquer alegações de exclusividade em relação a um conhecimento superior da realidade espiritual são inverídicas. No entanto, tal objeção em si já é uma crença religiosa. Ela parte do pressuposto de que é impossível conhecer a Deus, ou de que Deus é amoroso, mas não se ira, ou de que Deus é uma força impessoal e não uma pessoa que fala nas Escrituras. Todas essas afirmações de fé que não se sujeitam a comprovações. Além disso, seus defensores acreditam possuir uma forma superior de ver as coisas. Acreditam que o mundo será melhor se todos abandonarem as noções de Deus e da verdade presentes nas religiões tradicionais e adotarem as suas. Se todas aquelas noções devem ser desencorajadas, o mesmo se aplica a esta. Se não consideramos sinal de ignorância defender essa noção, nada existe de inerentemente ignorante em apegar-se às crenças religiosas tradicionais.” [4]

O cristianismo é sim uma religião exclusivista no sentido de que somente Jesus salva e nenhum outro deus tem esse poder. Entretanto, esse caminho está aberto para todos aqueles que a Ele se achegarem. Esse Deus se importa tanto com os homens que depois de ressuscitar fala aos seus discípulos para pregar por todo mundo (Mt 28) e, hoje, pessoas do mundo inteiro tiveram oportunidade de se render à esse Deus.

Depois dessa série, que expôs, segundo a Bíblia, quem Jesus não foi e quem Ele de fato é, qual é a sua posição? Jesus foi mais que um mestre, mais que um líder, mais que alguém que quer que você se sinta bem com você mesmo. Ele veio resolver um problema muito maior que toda nossa política, necessidades emocionais ou falta de bons conselhos. Ele veio para nos reconectar com Deus. Tudo que precisávamos foi feito em Sua morte.

"E vocês? ", perguntou ele. "Quem vocês dizem que eu sou? " Pedro respondeu: "Tu és o Cristo". Marcos 8:29

E para você, quem é Jesus?
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[1]Lewis, C. S., “Cristianismo puro e simples” – 3ª ed. São Paulo- SP: WMF Martins Fontes, 2009, p.80;
[2] Keller, Timothy, “A fé na era do Ceticismo: como a razão explica Deus”. São Paulo- SP: Vida Nova, 2015, p.223;
[3] Moreland, J. P., citado por Strobel, Lee. “The case for Christ”, p.246-247;
[4] “A fé na era do Ceticismo: como a razão explica Deus”. São Paulo- SP: Vida Nova, 2015, p.38.


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