TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

24 de novembro de 2016

17:00

Existem figuras que durante a história, recente ou não, demonstraram ser um tanto quanto controversas. Há múltiplas interpretações para quem elas realmente foram. Podemos pensar em inúmeros políticos, figuras religiosas e até mesmo intelectuais que dividem opiniões quanto a seus comportamentos e legados. Com Jesus não é diferente. Diversas religiões dizem que Jesus foi um grande profeta, ou alguém realmente iluminado. Outros veem em Jesus uma figura forte, algo como líder político. Os mais céticos dirão que ele não passou de um farsante, e tudo que foi falado sobre ele na bíblia não passa de engodo. Essas diferentes visões são fruto, algumas vezes, da apropriação de Jesus para utilizá-lo em um dado discurso religioso ou moldar-se a sua figura para atender motivos pessoais e afetivos.

Nesta série* de estudos iremos abordar algumas dessas visões correntes sobre Jesus. Quem ele realmente foi? O intuito é levar o leitor à reflexão sobre compatibilidade de cada uma dessas opiniões em relação à visão bíblica e ao final ponderar quem ele foi sob uma perspectiva cristã.

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Jesus, o ópio do povo
"Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve". Mateus 11:28-30

Você já ouviu alguém dizer que o evangelho é uma mensagem de alento para os fracos? Já ouviu falar de pessoas que se aproveitam da mensagem para manipular os fiéis? No Brasil e no mundo têm se levantado inúmeros líderes com essas características que, os céticos afirmam, Jesus também tinha.

Mais especificamente no Brasil, alguns líderes neopentecostais tem sido “bons” exemplos de líderes mentirosos. Notícias que divulgam a fortuna de pastores, desmascaram curas e mostram a manipulação de clérigos recheiam as páginas dos jornais. Um caso recente nos noticiários foi o caso de estupro cometido pelo Pastor Marcos Pereira, que após o depoimento de vários fiéis acerca de abusos foi preso.
“Segundo os autos do processo, o crime foi cometido, no final de 2006, contra uma fiel nas dependências da igreja. ‘As testemunhas ouvidas relatam com firmeza como o acusado é uma pessoa manipuladora, fria, só pensa em si, utilizando-se das pessoas para satisfazer seus instintos mais primitivos e de forma promíscua, utiliza da boa fé das pessoas para enganá-las’, diz a juíza Ana Helena Mota Lima Vale na sentença. Quatro testemunhas do caso do pastor Marcos Pereira afirmaram ter sofrido abuso sexual por parte do religioso em depoimento na 2ª Vara Criminal, em São João de Meriti, em julho.”[1]

Há muitos que creem que Jesus não passou de um farsante, ainda que muito convincente. Jesus e seus discípulos na visão destes seria apenas mais um líder ganancioso que fundaram uma nova religião para conseguirem fama e poder. Alguns textos bíblicos, dependo de como se lê, podem aparentemente trazer a ideia de um Jesus que serve apenas de alento para aqueles que o seguem. “Quando os mestres da lei que eram fariseus o viram comendo com "pecadores" e publicanos, perguntaram aos discípulos de Jesus: "Por que ele come com publicanos e ‘pecadores’? " Ouvindo isso, Jesus lhes disse: "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores". Marcos 2:16,17

Uma mensagem de alívio para “cansados e sobrecarregados”, uma mensagem de salvação para “pecadores”. Pode parecer que Jesus estava usando estratégias de marketing para arrebanhar fiéis. É nesse contexto que a afirmação de Marx, diariamente propalada, “A religião é o ópio do povo” se mostra um tanto quanto cabível, uma vez que ela é uma forma dos líderes religiosos manterem seus privilégios enquanto os fiéis permanecem anestesiados por uma mensagem supostamente redentiva.

À primeira vista tais afirmações, de forma isolada, parecem mostrar que a figura divina do Cristo é, como dito por Freud, apenas uma projeção humana criada por seu anseio de uma figura paterna perfeita [2] e utilizada por Jesus como forma de arrebanhar uma enorme multidão para seus interesses. Entretanto, como boa parte das vezes, essas afirmações estão escondidas atrás de uma ignorância da mensagem do evangelho como um todo. Jesus demonstra muitas vezes ir no caminho oposto ao de um líder egocêntrico e manipulador. Vamos ver alguns argumentos nesse sentido.

Em primeiro lugar, Ele demonstra não ligar para a aceitação dos outros, mesmo e principalmente quando se tratava do seu próprio povo: Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e lhes disse: "Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração’; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões’"(Mateus 21:12,13). Isso mostra que Ele não estava simplesmente interessado no dinheiro que as pessoas poderiam dar ao templo, mas queria ver verdadeiros adoradores.

Em segundo lugar, Jesus também demonstrou profunda humildade, como Paulo mostra na sua carta à igreja de Filipos, “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”(Filipenses 2:5-8).

Em terceiro lugar, Jesus confrontou os pecadores em seus pecados, como ocorre com a mulher adúltera: “Nem eu também te condeno: vai-te, e não peques mais.” (Jo 8:11). Ele não deixou sem repreensão aqueles que necessitavam de uma mudança de atitude, ainda que dispendesse perdão.

Ora, tais atitudes são totalmente contrárias a um líder que quer ser grande e utilizar dos seus discípulos para aumentar sua fama, ainda mais pensando em um povo que esperava um líder político forte o suficiente para livra-los do império Romano. Jesus vai na contramão desse pensamento, porque sendo Deus, se esvazia da Sua glória e entrega Sua vida por aqueles que não tem valor.

No livro de Atos dos Apóstolos, enquanto os apóstolos se apresentavam ao sinédrio (assembleia judaica) acusados de estarem pregando o evangelho e sofrem a fúria de saduceus e fariseus, levantou-se Gamaliel para falar acerca do que estava acontecendo.
"Israelitas, considerem cuidadosamente o que pretendem fazer a esses homens. Há algum tempo, apareceu Teudas, reivindicando ser alguém, e cerca de quatrocentos homens se juntaram a ele. Ele foi morto, todos os seus seguidores se dispersaram e acabaram em nada. Depois dele, nos dias do recenseamento, apareceu Judas, o galileu, que liderou um grupo em rebelião. Ele também foi morto, e todos os seus seguidores foram dispersos. Portanto, neste caso eu os aconselho: deixem esses homens em paz e soltem-nos. Se o propósito ou atividade deles for de origem humana, fracassará; se proceder de Deus, vocês não serão capazes de impedi-los, pois se acharão lutando contra Deus". Atos 5:34-39

“Concluir que Jesus era deliberadamente mentiroso não corresponde ao que sabemos sobre ele nem aos resultados de sua vida e seus ensinos. Onde quer que Jesus seja proclamado vemos vidas transformadas para o bem, nações mudando para melhor, ladrões se transformando em pessoas honestas, alcoólatras voltando à sobriedade, pessoas cheias de ódio tornando-se canais de amor, gente injusta abraçando a justiça.”[3]

Se Jesus fosse apenas um líder farsante, logo cairia, assim como os outros, e seus discípulos seriam dispersos. Mas Ele não era desse tipo de liderança. A mensagem de Cristo era uma mensagem dura, de arrependimento e restauração, muito diferente daquela propagada pelos pastores da prosperidade. O sucesso da mensagem da cruz, a despeito de valores pouco cultivados pelos líderes carismáticos, só demonstra quem Ele realmente foi e é, Filho único de Deus, o Messias que veio para salvar o mundo.

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*Essa série é resultado de estudos bíblicos que foram realizados nos GPs da UNICAMP, que fazem parte do ministério CONECTE-IBCU. Portanto, o objetivo dessa série, além de trazer uma perspectiva cristã sobre as ideias concebidas na contemporaneidade sobre Cristo, é também incentivar e servir de base para estudos bíblicos em escolas, universidades ou até mesmo em meios profissionais. Se quiser se aprofundar sobre o tema abordado na série, recomendo a leitura do livro “Mais que um carpinteiro” de Josh McDowell. 

[1] G1, Pastor Marcos Pereira é colocado em liberdade no Rio na véspera do Natal. Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/12/pastor-marcos-pereira-ganha-habeas-corpus-no-rio-na-vespera-do-natal.html>. Acesso em 14 de setembro de 2016;
[2] Freud, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. São Paulo: L&PM, 2010. 144p.
[3]McDowll, Josh, McDowell, Sean, “Mais que um carpinteiro: a história deste livro pode mudar sua história”. São Paulo-SP: Hagnos, 2012, p. 39.