Uma fé implicante

Uma fé implicante
26 de outubro de 2016

18:00


A busca por uma fé relevante, felizmente, tem sido pauta constante de discussão em comunidades cristãs urbanas. É possível perceber um esforço por parte de jovens cristãos, por exemplo, em fornecer oficinas, debates e palestras com temas atuais no intuito de conceber uma fé plausível e verificável.

É comum, no entanto, que pensemos ser a fé relevante aquela carregada de conteúdo acadêmico, social e político. Este fenômeno está associado à nossa adequação a visão de mundo presente em nossa realidade sociocultural, quando somos encorajados pela nossa sociedade a buscar um ativismo meritório.

Em uma sociedade que preza por grandes eventos como forma de reestruturação cultural, incorremos no erro de achar que é muito mais relevante publicar um artigo, escrever um livro ou realizar uma palestra no auditório da faculdade, com cosmovisão cristã, do que participar do culto congregacional aos fins de semana, ou simplesmente tomar café com um amigo. Afinal de contas, estamos cumprindo o “ide”, o culto dominical limitaria a fé a quatro paredes e o discipulado individual seria ineficaz.

É importante lembrar, no entanto, que um cristão relevante não é aquele que dá entrevistas, escreve livros e aparece na televisão. Também não é o “político que deu certo”, que conseguiu manusear as políticas públicas de forma sábia e proporcionar o mínimo de justiça social. Estas são possíveis consequências visíveis de uma fé relevante. Mas não são o cerne da questão.

Henri J. M. Nouwen, ex-professor das famosas universidades estadunidenses de Harvard, Yale e Notre Dame, compartilhou um pouco de sua experiência ao abandonar toda sua carreira promissora para cuidar de deficientes mentais, quando observou que todo o seu currículo acadêmico era inútil para a nova realidade. A respeito de seus pacientes, disse:

“Estas pessoas arruinadas, feridas e completamente despretensiosas me forçaram a abandonar o meu ego relevante, o ego que pode realizar coisas, mostrar coisas, provar coisas e construir coisas. Elas me forçaram a retomar aquele ego sem enfeite, que me deixa completamente vulnerável, aberto a receber e a dar amor indiferente de quaisquer realizações.
Digo tudo isto porque estou profundamente convencido de que o líder cristão do futuro é chamado para ser completamente irrelevante e a estar neste mundo sem nada a oferecer a não ser a sua própria pessoa vulnerável. Foi assim que Jesus veio revelar o amor de Deus.”[1]

Um cristão relevante, assim, é aquele que tem em si a mesma postura adotada por Cristo, de esvaziar-se a si mesmo, se humilhar e tornar-se servo (Filipenses 2.2-16).  

A forma como Cristo se identifica com sua igreja, como sendo seu corpo, a ponto de ser o participante primeiro das perseguições que ela venha a sofrer (Atos 9.4), nos proporciona uma compreensão exata da unicidade com Cristo quando estamos em comunhão com seu corpo.

A fé relevante será encontrada na pessoa de Cristo, por meio da comunhão com sua igreja. Nessa perspectiva, como pode o jovem cristão professar uma fé relevante se do próprio corpo de Cristo não toma parte?

Não pretendo desmotivar um ativismo cristão na sociedade como forma de proliferar o Evangelho da reconciliação. Procuro, pelo contrário, nos lembrar acerca das motivações que nos levam a tal ativismo. Nossas atitudes, falas e pensamentos devem ser reflexos da pessoa de Cristo e não de uma exigência cultural.

A pergunta que nos resta fazer é: Por que e aos olhos de quem queremos ser relevantes?


[1] Henri J M. Nouwen, O Perfil do Líder Cristão do Século XXI, 2002, p. 18.

Comente com o Facebook: