Uma fé implicante

Uma fé implicante
20 de outubro de 2016

03:19

Quando o “impulso da fome” impele minha vida, ou um segmento dela, na verdade estou envolvido num comportamento religioso. Eu (“minha carne”) tornei-me meu próprio deus, e a comida tornou-se objeto da minha vontade, desejos e temores. A Bíblia observa o mesmo emaranhado de motivos que as ciências comportamentais vêm como “impulsos primários”. Algo biológico sem dúvida está ocorrendo. Algo psicológico, e até mesmo sociológico, acontece. Mas a conceituação bíblica difere radicalmente. Não sou “dirigido-pelo-impulso-da-fome”. Sou “dirigido-pelo-impulso-da-fome-ao-invés-de-Deus [1]”.

Comer demais, mesmo sem ter fome por sinal de ansiedade ou depressão. Quando já nos saciamos, mas continuamos “mandando comida para dentro”, é sinal de que o ato de comer tornou-se pecado. Muita gente não se dá por satisfeito enquanto não sentir, literalmente, a barriga estufar: comem quase até passar mal. Além de prejudicial à saúde e levar a obesidade, este hábito é pecado diante de Deus. Outras pessoas ainda reagem com irritabilidade quando o jantar atrasa, manipulam para conseguir o maior pedaço, comem para se sentir bem e coisas assim; tudo isso é subproduto dos ídolos que retêm no coração (Fp 3.19; I 5.11).

Erroneamente as pessoas pensam que a Gula trata-se apenas em se comer descomedidamente, mas ela também se refere ao consumo de bebidas de forma demasiada. A gula em si é o descontrole na alimentação; e os alimentos são sólidos, líquidos e pastosos. Logo, comer e beber muito são atos que levam ao pecado da gula. Devemos ter em mente que o guloso não é apenas a pessoa gorda, os magros também podem ser glutões. Basta que a pessoa magra encontre conforto, alegria e satisfação na comida. Ao mesmo tempo em que nem todas as pessoas que estão acima do peso são glutonas. Elas podem ter problemas de saúde onde mesmo comendo porções razoáveis ficam com peso excessivo.

Podemos também observar que há dois tipos de gula: a ocasional, onde uma pessoa excede-se em comida e bebida, geralmente por causa de uma festa ou evento do tipo, ou até mesmo por questões de ansiedade; e a regular, a qual diz respeito ao indivíduo que a comete com frequência.

Independe de qual situação você viva gula é gula. Não é como aquele caso “social”. É pecado e tem que ser tratado. O prazer da comida pode trazer um conforto imediato diante de pressão, preocupação, solidão, ira, tédio. Mas só Deus pode trazer a solução verdadeira para esses problemas. Cristo é suficiente.

Temos princípios bíblicos que nos lembram claramente do bom cuidado que devemos ter do nosso corpo, pois ele pertence a Deus: Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn 1.27); Pois vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver que lhes foi transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito (1 Pe 1.18,19); Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos. Vocês foram comprados por alto preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês (1 Co 6.19, 20). Por isso, em se tratando de disfunção alimentar, ainda encontramos algumas questões, que mesmo não sendo todas glutonaria, as quais quero chamar rapidamente a atenção aqui:

Anorexia[2]: Transtorno alimentar caracterizado por um grande temor de ganhar peso, ainda que o paciente esteja muito abaixo do peso ideal. Ele se impõe, então, uma rígida dieta de restrição alimentar.

Bulimia[3]: Transtorno alimentar caracterizado pelo ciclo formado por uma etapa de grande ingestão de alimentos e outra de compensação ou purgação: força-se o vômito ou ingere-se laxantes e/ou diuréticos para eliminar a comida. Existe também o bulímico não purgativo, que faz exercícios físicos obsessivamente e passa por períodos de jejum. Nos dois casos, também há temor de ganhar peso.

Drunkorexia[4]: Esta expressão vem da junção entre as palavras drunk (embebedado, em inglês) e anorexia, uma disfunção alimentar caracterizada pela perda de apetite e por atitudes obsessivas em relação à magreza.  A drunkorexia, portanto, acontece quando um indivíduo, preocupado obsessivamente em não engordar, passa a consumir bebidas alcoólicas para substituir a comida. Acomete principalmente adolescentes do sexo feminino e jovens mulheres.

Vigorexia[5]: Obsessão pelo corpo musculoso. A Vigorexia ou Síndrome de Adonis é um transtorno dismórfico corporal caracterizado pela insatisfação constante com o corpo, ou seja, alteração da autoimagem. Afeta principalmente os homens, levando-os à prática exaustiva de exercícios físicos. As pessoas com vigorexia desenvolvem uma dependência pelo exercício físico e pelo corpo musculoso, pois nunca se satisfazem com a condição em que se encontram. “Essa busca acaba alterando a rotina do indivíduo, que acaba dedicando muito tempo à atividade física, o que pode até resultar em quadros depressivos”, afirma a psiquiatra Dra. Mara Maranhão.

Ortorexia[6]: Pode ser definida como uma obsessão por uma alimentação extremamente saudável. Diferentemente da anorexia ou da bulimia, pessoas que sofrem com ortorexia se dão ao direito de comer, no entanto, elas são tão obcecadas com a qualidade do que comem que a maioria dos pensamentos se volta a isto.

Estes últimos transtornos, que podemos claramente chamar de pecados, estão ligados diretamente à vaidade, pecado já tratado aqui em nossa série. Vaidade juntamente a uma disfunção alimentar que tentam saciar um ídolo no coração de indivíduos.

E para lutar contra a tentação de comer descontroladamente, ou só por prazer, John Owen no seu livro “A tentação e a mortificação do pecado” nos traz a mente importantes lembretes e conselhos para vencermos estas e qualquer outra tentação:

“Só um cristão, isto é, uma pessoa que está verdadeiramente unida a Cristo, é capaz de mortificar o pecado[7]”. “Você não mortificará nenhum pecado a não ser que, sincera e diligentemente, busque lidar com todo pecado[8]”.

Nossa comunhão com Deus deve ser restabelecida, por isso o pecado deve ser assumido, confessado e estarmos dispostos a praticar as medidas necessárias para vencê-lo. Pecados não confessados nos afastam da comunhão com Deus e você só confessa algo que admite fazer. Confissão de pecado, de acordo com 1 João 1.9, vai nos proteger da disciplina de Deus. Se falharmos em confessar nosso pecado a ciência de Deus, com certeza, virá até confessarmos. Como dito previamente, nossos pecados são perdoados no momento da salvação (perdão posicional), mas nossa comunhão com Deus precisa estar em boas condições de uma forma diária, o que não pode acontecer se temos pecado não confessado em nossas vidas (perdão relacional). Portanto, precisamos confessar nossos pecados logo quando os cometemos para podermos manter uma comunhão correta com Deus.

“Quando um desejo pecaminoso em particular obtém o consentimento da vontade com certa dose de prazer, mesmo que um ato externo de pecado não seja cometido, o desejo pecaminoso obteve sucesso[9]”.

Deixe de cultivar um espírito de autossuficiência. É isso o que acontece quando você pensa: “posso comer o que quero, quando quero e quanto quero”. Cada área de nossa vida deve estar submissa à vontade de Deus, inclusive a alimentar. Se tudo que temos é dEle, vem dEle e é para Ele (Rm 11.36), nossa alimentação também deve ser assim.

Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Mt 11.28, 29.

Comer de mais, comer de menos, matar a ansiedade ou fugir das frustrações? Fica uma pergunta no ar: Onde você tem depositado as suas esperanças para continuar firme sua caminhada? O que importa é se de fato reconhecemos o objetivo de estarmos aqui: Viver para a glória de Deus e não para a nossa glória. Já pensou nessas IMPLICAÇÕES? Que Deus te abençoe meu irmão. Na próxima vamos discutir um pouco sobre a inveja.

GULA VS os outros pecados[10]

Gula e Avareza: A Avareza diz respeito ao ato descontrolado de tomar posse de algo, ganância, cobiça. Neste caso, algumas pessoas tendem a ter um descontrole em se apossar por alimentos, isso gera a "avareza da gula". 

Gula e Preguiça: É visível que as pessoas obesas tendem a se tornar preguiçosas, pois o peso excessivo afeta a estrutura muscular e óssea do corpo, isso leva as pessoas a sentirem desconforto, a se cansarem mais facilmente e até mesmo dor, quando tem que andar por muito tempo, correr, ou fazer alguma atividade física. Logo, tais pessoas preferem evitar isso, e neste caso, a gula está contribuindo para a preguiça. Em alguns casos mais graves, a pessoa acaba se tornando profundamente sedentária, o que é chamado de obesidade mórbida. Nessa situação os indivíduos tendem a ficar presos a suas casas e até mesmo em seus quartos. As pessoas chegam a um estado que de tão pesadas não conseguem andar.

Gula e Ira: A Gula pode levar a Ira através da embriaguez. Os estado da embriaguez afeta as pessoas de diferentes formas: umas se tornam mais alegres, risonhas; outras ficam caladas, tristes; outras ficam sonolentas, com dor de cabeça; outras ficam tontas, desorientadas; mas, em alguns casos, alguns acabam ficando agressivos, perdem a paciência facilmente, irritam-se por questões simples e banais, e isso os leva a se enfurecerem. Algumas brigas em bares são causadas pela irritabilidade gerada pela embriaguez. A gula levou a ira. 

Gula e Vaidade: A Gula se torna Soberba quando a pessoa passa a esbanjar a fartura de alimentos não como uma benção, mas como status social, como motivo de soberba, esnobação, ostentação. Ou seja, o indivíduo que tem dinheiro para comer e beber muito, e que esbanja isso.




[1]POWLISON, David. Ídolos do coração e Feira das Vaidades. Refúgio, SP. Página 7.
[2] http://veja.abril.com.br/especiais_online/anorexia-bulimia/bulimia-anorexia.shtml
[3] Idem
[4]http://www.einstein.br/einstein-saude/nutricao/Paginas/drunkorexia.aspx
[5]http://www.einstein.br/einstein-saude/em-dia-com-a-saude/Paginas/vigorexia-obsessao-pelo-corpo-musculoso.aspx
[6] http://www.saudemedicina.com/ortorexia/
[7]OWEN, John. A tentação e a mortificação do pecado. PES – Publicações Evangélicas Selecionadas. p. 123.
[8]Idem. P.129.
[9] Idem. P 139.

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