TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

9 de setembro de 2016

00:49

A decisão que consumou o processo de impeachment da então ex-presidente Dilma suscitou acalorados debates e comentários a respeito da juridicidade e justeza da referida decisão. De um lado gritam “Fora Temer” do outro publicam “Tchau Querida”.

Nesse cenário alguns têm recorrido a figura histórica e humana de Cristo com o intuito de defender os próprios posicionamentos políticos. Certamente nosso Mestre é referência para os mais variados aspectos de uma vida justa. E, com toda a certeza, devemos recorrer às Escrituras e a Cristo para tomarmos posicionamentos sábios num cenário de crise política e institucional.

A intenção, no entanto, que nos leva a recorrer à Palavra pode estar maculada pelo nosso egoísmo, que se reflete no modo pelo qual (re)agimos e falamos diante desses últimos acontecimentos.

Infelizmente, a utilização atual de “Cristo” como fundamento político para o “pró” ou “contra” impeachment tem contribuído mais para o enfraquecimento da mensagem do Evangelho do que para seu aperfeiçoamento. Explico.

Algumas pessoas têm sido um tanto “reducionistas” ao ponto de afirmar, embora não com as mesmas palavras, que Cristo era/é partidário, e quem não se identifica com determinado posicionamento político está contra Ele (como se para ser cristão você precisasse crer em Jesus e adotar determinada linha política).

Não podemos, no entanto, olhar para Cristo apenas como uma figura histórica e humana e torna-lo um mero argumento que contribui para a sustentação de uma tese política. Pelo contrário, agora o vemos como Deus e Salvador, a partir de uma perspectiva reconciliadora (2 Coríntios 5.16-19).

Douglas Wilson[1], ao debater com Christopher Hitchens se o cristianismo é bom para o mundo, nos lembra acerca dessa nova perspectiva:

“Jesus não foi apenas mais um personagem na História, por mais importante que ele tenha sido – antes, foi e é o fundador de uma nova História, uma nova humanidade, um novo jeito de sermos humanos.”

Cristo não pode ser o que nós queremos, porque na grande maioria das vezes, o que queremos, é simplesmente provar aos semelhantes que estamos certos e satisfazer nosso ego político e literário, sem em nada falar a respeito da reconciliação. E isso tem enfraquecido a mensagem do Evangelho.

Em tempos de crise, assim, cabe nos relembrar acerca da esperança. As mudanças sociais e políticas que tanto almejamos só ocorrerão a partir do Evangelho, isto é, quando levamos aos outros a mensagem da reconciliação.

Cabe nos lembrar, por fim, que não há problema algum em debater sobre política e basear-se nas Escrituras. A questão é por qual motivo o fazemos. E, a este respeito, bem escreveu Arthur Walkington Pink[2]:


"O estudo da Palavra de Deus pode ser realizado com base em vários motivos. Alguns leem a Bíblia para satisfazer seu orgulho literário. (...) Outros a leem para satisfazer seu senso de curiosidade, como o fariam com qualquer outro livro famoso. Ainda outros a leem para satisfazer seu orgulho sectarista. Estes (...) buscam ansiosamente textos que provem e apoiem o que eles chamam de "nossas doutrinas". Ainda há aqueles que leem a Bíblia com o propósito de argumentar eficazmente com aqueles que discordam de suas opiniões. Em toda essa atividade, não há qualquer pensamento sobre Deus, não há qualquer anelo pela edificação espiritual, e, por conseguinte, não há qualquer benefício genuíno para a alma. 

(...) O texto bíblico nos diz: "Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra". Observemos o que é omitido: as Escrituras Sagradas não nos foram dadas para satisfazer nossa curiosidade intelectual ou nossas especulações carnais, e sim para capacitar-nos para toda boa obra, mediante o ensino, a reprovação e a correção.

Por um debate político coerente e por um cristianismo e evangelho autênticos.




[1] Douglas Wilson, Christopher Hitchens. O Cristianismo é bom para o mundo? : um debate sobre a maior religião monoteísta do planeta. São Paulo: Grimpo Editorial, 2010. p. 76.
[2] Arthur Walkington Pink. Enriquecendo-se com a Bíblia. São Paulo: Editora Fiel, 2011. p. 16-17.