Uma fé implicante

Uma fé implicante
22 de setembro de 2016

02:38
O caráter interno da motivação é demonstrado na expressão “concupiscência da carne” (1 João 2:16): nosso movimento de inércia “centrado em nós mesmos”, vontades, esperanças, medos, expectações, “necessidades” que abarrotam nossos corações[1].


Os vícios capitais na enumeração de Tomás de Aquino[2]são: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Hoje, em lugar da vaidade, a Igreja católica coloca a soberba e em lugar da acídia é mais frequente encontrarmos a preguiça na lista dos vícios capitais. Isto se deve a que a soberba é considerada por Tomás como um pecado, por assim dizer, "mega-capital", fora da série e, portanto, prefere falar em vaidade.

Quando achamos que por nossas próprias forças podemos colocar algo em nosso coração para suprir a presença que só Deus é capaz de preencher temos a soberba. Observe como esse pensamento de David Powlison se assemelha ao de Tomás:

O primeiro Grande Mandamento, “amar a Deus de todo coração, alma, mente e força”,também demonstra a “interioridade” essencial da lei no que diz respeito à idolatria. A linguagem do amor, confiança, temor, esperança, buscar e servir (termos descritivos do relacionamento com o Deus verdadeiro) é continuamente usada na Bíblia para descrever nossos falsos amores, falsas confianças, falsos temores, falsas esperanças, falsas procuras e falsos mestres[3].

Vejamos essa interessante observação sobre o pecado: o pecado é «o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus». Por esta exaltação orgulhosa de si mesmo, o pecado é diametralmente oposto à obediência de Jesus, que realizou a salvação[4]. A soberba parece estar de fato no cerne de todo pecado. Assim, também podemos ver a soberba presente no pecado de reis e do próprio Satanás (Ezequiel 28 e Isaías 14), como também em Adão e Eva:

Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, E SEREIS COMO DEUS, sabendo o bem e o mal. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.
Gênesis 3:4-6

Logo, vamos seguir a linha de Tomás que em lugar da soberba, prefere falar da vanglória (vã-glória). Ao discutir os conceitos de vã e de glória, fala desta como esplendor (daí nossos adjetivos: brilhante, ilustre, esplêndido etc.). A perversão do bem da glória é precisamente a glória vã da vaidade.

Vaidade
Esta palavra na Bíblia nunca tem a significação de desvanecimento e orgulho, mas quase sempre a de vacuidade. A conhecida expressão ‘vaidade de vaidades’ literalmente quer dizer ‘sopro de sopros’, ou ‘vapor de vapores’ (Ec 1.2). Em Is 41.29 e Zc 10.2, ‘vácuo’ e ‘vazios’ são a tradução de uma palavra que significa tristeza e iniquidade[5].

O Webster'sDictionary 1828 - Online Edition, ainda complementa:
O vazio; quer da substância para satisfazer o desejo; incerteza; inanidade. Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade Eclesiastes 1: 2. Os trabalhos banais que não produz bom resultado. Prazer vazio; vã perseguição; Mostrar ocioso; prazer sem substância. A ostentação; arrogância. A inflação da mente sobre frágeis fundamentos; orgulho vazio, inspirado por um conceito arrogante de realizações ou decorações pessoal de cada um.

O coração humano toma coisas boas como uma carreira de sucesso, amor, bens materiais, e até a família, e faz delas seus bens últimos. Nosso coração as diviniza como se fossem o centro de nossa vida porque achamos que podemos ter significado e proteção, segurança e satisfação se as alcançarmos[6].

Achamos que ídolos são coisas ruins, mas isso nunca é verdade. Quanto maior o bem, maior é a tendência de esperarmos que ele satisfaça nossas necessidades e esperanças mais profundas. Qualquer coisa pode servir como um falso deus, especialmente as melhores coisas da vida[7].

Por exemplo, quase todo mundo quer ter uma boa aparência, estar bem vestido, estar limpo, estar arrumado. Isso é um preceito estético e de higiene. Eu não quero sair na rua ou estar em casa, estando sujo, desarrumado, fedendo, etc. Em tal aspecto esse cuidado não é pecaminoso. Todo mundo quer se sentir belo em algum momento, quer sair arrumado para agradar à família, aos amigos, aos convidados, à namorada(o), o marido, esposa. Você ainda pode ficar satisfeito por ter feito algo bem feito. Ou ainda querer honrar alguém, onde esta honra significa respeito, ou uma gratificação, um reconhecimento, uma parabenização por algo.

A questão é se perdermos isso - elogios, beleza, roupas, etc- ficaremos desesperados? A motivação está ligada diretamente a questão do senhorio. O que te motiva a fazer o que você faz? Você faz para glória de Deus ou para inflar seu ego. Por que você se veste bem? Por que você malha? Você depende de elogios? O que nos motiva nos governa.

Vamos ver alguns exemplos de vaidade:
1.    Cuidar da aparência no intuito de querer chamar a atenção, e fazer com que outros o admirem por isso. Se tornar o centro das atenções gerando então o narcisismo: amor-próprio excessivo por si, desenvolvendo uma grande preocupação com sua aparência estética e social.
2.    Valorizar suas ações, pensamentos e desejos. Para este tipo de pessoa, o "mundo gira em torno dela", apenas sua opinião é a certa, é que tem serventia; apenas seus propósitos são justos e dignos.
3.    Dar excessiva atenção e valor, a riqueza e ao luxo, a mostrar para outros suas posses.
4.    Vangloriar ou se esnobar, após ganharem, conquistarem, receberem algo ou alguma coisa.
5.    Viver para obter fama, notoriedade e glória.

Como diz a definição que lemos ações vazias que não levam a nada.

Lembremo-nos:
Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?, POIS DELE, POR ELE E PARA ELE são todas as coisas. A ELE seja a glória para sempre! Amém. Romanos 11:33-36

Meu amado, se você tem deixado esse pecado te escravizar lembrem-se dessa passagem. Vaidade tira toda a glória de Deus e dá a você. Existe uma grande diferença entre se vestir para estar bonito e bem apresentado e querer chamar a atenção dos outros; entre fazer suas atividades para glorificar aquele que deu a você inteligência e capacidades intelectuais e buscar fama e querer holofotes em você. Sem falar naqueles que dizem que fazem para glorificar a Deus, mas estão vivendo um autoengano.

Então pense nas seguintes IMPLICAÇÕES:

1.    Quais suas motivações para vestir como você se veste?
Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus. 1Co 10.31
Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. 1 João 2:15

2.    Você está satisfeito com aquilo que Deus escolheu para você?
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza. Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Salmos 139:14-16

3.    Você tem transmitido a beleza da obra de Cristo ou quer que a sua apareça?
"Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus". Mateus 5:14-16
  
VAIDADE VS Os outros seis pecados[8]

Vaidade e Gula: A Gula se torna vaidade, quando a pessoa passa a esbanjar a fartura de alimentos não como uma benção, mas como status social, como motivo de soberba, esnobação, ostentação. Ou seja, o indivíduo que tem dinheiro para comer e beber muito, e que esbanja isso.

Vaidade e Avareza: A avareza já é considerada um ato egoísta, possessivo e obsessivo por algo, alguma coisa ou alguém. Quando o avarento passa a se esnobar por suas posses, ou repudiar críticas as suas atitudes, ele acaba se tornando soberbo.

Vaidade e Preguiça: A Preguiça se torna vaidade, quando a pessoa passa a desejar algo ou querer receber algum mérito, mas não se desempenhou em conseguir o que queria, no entanto, tal indivíduo se sente como se estivesse certo, como se fosse de seu direito. Querer algo e não fazer nada para conseguir, é visto como Preguiça. Por outro lado, a Preguiça também se torna vaidade, quando a pessoa passa a se reconhecer tendo mérito sobre algo que não fez, mas que lhe fora proporcionado por terceiros. E num terceiro aspecto, A vaidade surge da preguiça, quando você se nega a fazer algo por motivos egoístas, vaidosos, etc.

Vaidade e Luxúria: A Luxúria pode ser vaidosa, quando o homem ou a mulher utilizam sua beleza para atiçar o desejo sexual em outras pessoas, e ao mesmo tempo se regozijam por causa disso, pelo fato de serem almejados. A Luxúria se une a vaidade, quando a pessoa passa a se gabar de suas proezas sexuais, contando que fez isso, fez aquilo, que teve relações com tantos homens ou mulheres e até com ambos. O luxurioso orgulhoso, não se vê como culpado de seus atos, mas sente admiração pelo que faz e em alguns casos gosta de se esnobar. 

Vaidade e Inveja: A Inveja leva a vaidade quando o invejoso não aceita que está errado, quando não aceita que sua inveja seja algo ruim, mas a nutre na tentativa de ambicionar conquistar o que o invejado possui.

Vaidade e Ira: Em alguns casos quando os vaidosos têm seu orgulho afrontado ou "ferido", eles reagem com fúria, com violência, eles se iram. Alguns não se iram no momento, mas passam a nutrir ódio e planejar uma vingança. Alguns vaidosos até mesmo agem com agressão (não precisa ser necessariamente física) contra outras pessoas, através da descriminação, preconceito, etc.





[1]POWLISON, David. Ídolos do coração e Feira das Vaidades. Refúgio, SP. Página 2.
[2] A classificação de Tomás difere ligeiramente das de Cassiano e Gregório.
[3]POWLISON, David. Ídolos do coração e Feira das Vaidades. Refúgio, SP. Página 3.
[4]1850. I. A misericórdia e o pecado. O PECADO. I ARTIGO 8. http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s1cap1_1699-1876_po.html. Acessado em 06/12/15 as 16:00.
[6]KELLER, Timothy. Deuses Falsos. Thomas Nelson Brasil. Pg 13.
[7]Idem. Pg 15.

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