TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

5 de agosto de 2016

14:46

É impressionante como o mundo gospel gosta de “causar”. O aplicativo do jogo Pokémon Go, um game de realidade aumentada que se tornou o produto mais baixado em todo o planeta, estreou de forma oficial no Brasil na última quarta-feira, 03 de agosto. O assunto está em alta e nós não poderíamos deixar de falar sobre isso.

A imagem de capa desse artigo está circulando em todos os lugares, e em poucos minutos, enquanto estava esperando no aeroporto em Teresina para Salvador, vi artigos de toda espécie, dos mais “amenos” que mostram como esse jogo é “apenas” a nova lavagem cerebral para os adolescentes, aos mais extremistas que veem o jogo como um sinal apocalíptico dos fins dos tempos (sem dúvida o mundo gospel gosta das teorias da conspiração, e do aparecimento de novos “anticristos” que trarão os anos de paz, ou algo assim...).

Pois é, melhor do que inventar novos sinais apocalípticos é entregar coisas para o capiroto. O mundo gospel faz isso como ninguém: a televisão é do diabo, a internet é do diabo, o sexo, o rock, o RPG, os filmes da Disney e agora o Pokémon Go.

Ao invés de entregar as coisas de mão beijada para o mundo, que tal seguirmos o conselho de Paulo e reinterpretarmos a realidade a partir da perspectiva de fé? Uma perspectiva que olha para o que é verdadeiro e justo e coloca todas as coisas em submissão a Cristo Jesus (2 Coríntios 10.3-5). Tudo pode ser reconduzido para o bem, seja um jogo, tecnologia, ou qualquer outra coisa. Afinal Pokémon Go é apenas um jogo, que por sinal pode ser muito divertido. A realidade aumentada não é o sinal do fim dos tempos, mas mais uma demonstração de como Deus dotou o homem de intelecto e criatividade, é demonstração de que embora caído, o homem tem toda a capacidade de dominar sobre a criação. Atacar o inimigo errado é minimizar os verdadeiros que são apontados pela Palavra de Deus: o sistema mundano (que transforma tudo que é bom em fonte de prazer pecaminoso), satanás e, claro, o nosso coração corrompido. Enfim, em resumo, o grande problema não é o Pokémon Go, eu mesmo já baixei o aplicativo no meu celular enquanto escrevia esse artigo.

Mas se o Pokémon Go não é o problema, qual é o problema?

Bem, sabendo quais são nossos reais inimigos, e dando nome ao pecado, o grande escravizador hoje é o narcisismo! Narcisismo deixou de ser pecado para sociedade já faz algum tempo. Ao invés disso ele é louvado e bonificado, é o Ídolo do momento. Feliz aquele que o seu maior defeito é o perfeccionismo, o que possuindo uma autoestima elevada é dotado de autoconfiança. Amizades virtuais, descomprometidas; relacionamentos abertos, um ambiente de trabalho que faça com que EU me sinta bem.

Nessa busca incessante para encontrar satisfação, a inquietude e ansiedade tornam-se elementos indispensáveis na bagagem da nossa geração. Estamos tão viciados no hedonismo que precisamos a cada dia de doses maiores dele. O que é vendido como o “segredo do sucesso”, na verdade tem nos tornado frágeis diante das constantes e imprevisíveis mudanças, entretanto mantemos o sorriso e trocamos likes. Pessoas plásticas, tanto em seu significado, como em seus relacionamentos. O que implica em uma socialização ilusória, sem sentido.

Como fuga, o mundo virtual tornou-se a opção mais segura onde podemos construir uma realidade simulada. Nesta realidade, sou EU quem desejo ser e tudo que gosto torna-se verdade para mim. Dentro dessa facilidade de adesão e abandono, as comunidades virtuais substituem o convívio real. Assim encontram o confortável (ainda que ilusório ou fraudulento) ‘sentimento de nós’ (BAUMAN, 2015). A necessidade de identificação, para ser suprida, abandona o plano real para satisfazer-se no ciberespaço. Ser um super treinador de Pokémon é mais uma oportunidade de ser alguém, de ser visto, sentir-se importante, mesmo que isso seja apenas uma brincadeira.

Quer devolver aos jovens e adolescentes sua sanidade? Não tirem o Pokémon Go, mas os ensine o valor do próximo, ensine a eles quem eles são em Deus. Você pode começar priorizando momentos em família, ao invés das horas extras no trabalho, pode começar por desligar o Facebook nas horas vagas e abrir a Bíblia para compartilhar o que Deus tem te ensinado para um amigo ou colega, ou melhor, admita suas fraquezas e falhas não esquecendo de evidenciar consequências e ao mesmo tempo a graça de Cristo. Dessa forma relacionamentos sociais serão valorizados, dessa maneira eles não precisarão buscar uma identidade fictícia. Dessa forma Pokémon Go, será para eles, apenas mais um jogo divertido.

Por ora, finalizo essa reflexão com parte da música de Lorena Chaves, que interpreta essa realidade com uma aguçada clareza poética:

Estou preso em meio a um labirinto cheio de espelhos;
O meu mundo gira em torno das vontades que eu tenho.
Estou imerso em um sistema que me diz você é livre,
mas no fundo o desejo pela liberdade não cessou.

Eu sou escravo do consumo desse amor por mim,
eu sou escravo sem saber que sou assim.

No Fundo eu me cansei, de me relacionar comigo;
Eu escrevo aqui, as últimas memórias de um narciso.
Vou procurar a paz que não se encontra em mim,
porque essa plenitude não pode se achar em alguém como eu.

Que sou escravo do consumo desse amor por mim,
eu sou escravo sem saber que sou assim.


Bibliografia Sugerida

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 7.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.