TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

5 de junho de 2015

17:00

O Fundamentalismo

A crescente influência da teologia liberal dentro das igrejas, seminários e no âmbito cultural dos Estados Unidos provocou uma forte reação conservadora no início do século XX, denominada fundamentalismo. Este termo provém do esforço dos protestantes conservadores no sentido de defender os “fundamentos” da fé cristã e bíblica ameaçadas pelo liberalismo teológico, bem como pela neo-ortodoxia e pela teologia da demitologização. Assim, este movimento pode ser definido como uma forma específica de ortodoxia protestante norte-americana que reagiu contra a teologia liberal do século XIX e início do século XX. 

Em oposição ao relativismo da teologia liberal, os fundamentalistas adotaram uma postura de afirmação de doutrinas consideradas essenciais, a começar da inspiração verbal e da inerrância das Escrituras[1]. 

Charles Hodge (1797-1878), teólogo, ministro presbiteriano e professor calvinista do Seminário de Princeton, Nova Jersey, foi um dos teólogos que lançou os alicerces da doutrina fundamentalista. Em sua volumosa Teologia Sistemática (1871-1873) ele trata a teologia como uma ciência racional cujo método consiste em coletar e organizar os dados da revelação bíblica, assim como a ciência o faz com os dados da natureza[2]. 

A partir daí, Hodge elaborou um sistema altamente coerente de teologia reformada conservadora. Esse sistema se apoiava inteiramente nas Escrituras, que ele considerou verbalmente inspiradas, infalíveis e normativas, contendo proposições, ou seja, declaração da verdade, que foram organizadas por seres humanos racionais, orientados pelo Espírito Santo[3]. 

Hodge reconhecia que os escritores humanos eram autores das Escrituras, mas para ele tais autores humanos não foram máquinas que escreviam mecanicamente sob a inspiração do Espírito Santo. Ele insistia que a inspiração e a infalibilidade se estendem às palavras da Bíblia e não apenas às ideias. Deste modo ele volta a enaltecer o aspecto divino das Escrituras que havia sido atacado e abandonado pelos liberais[4]. 

Charles Hodge e seu discípulo Benjamin Wardfield (1887-1921), prepararam caminho para o fundamentalismo de três maneiras, a saber, 1º identificando o cristianismo como doutrina correta; 2º dando ênfase à revelação como verdade objetiva e proposicional comunicada por uma Bíblia inspirada e inerrante; e 3º oferecendo respostas polêmicas à teologia liberal e aos métodos da alta crítica[5].

Desse modo, entre 1910 e 1915 é lançada uma série chamada de Os Fundamentos, composta por 12 volumes de artigos escritos por teólogos conservadores onde estes defendiam os pontos fundamentais do cristianismo e atacavam o modernismo (liberalismo), o evolucionismo, etc[6]. 

Apesar de passar por algumas mudanças e crises no século XX, o fundamentalismo foi e continua sendo até hoje, um poderoso grupo do cristianismo (principalmente norte-americano). Atualmente, os fundamentalistas são caracterizados como movimento que abrange todos os cristãos protestantes que procuram defender as doutrinas e opiniões tradicionais do protestantismo ortodoxo contra o modernismo em todas as suas formas e que sustentam que o cristianismo bíblico autêntico inclui a crença na inspiração verbal e na inerrância sobrenatural das Escrituras, bem como na hermenêutica literalista[7]. 

Assim, a posição ortodoxa de que a Bíblia é tanto um produto divino quanto um produto humano, foi defendido durante 18 séculos. Dos pais da Igreja até os Reformadores as Escrituras sempre foram entendidas como a Palavra de Deus que foi concebida mediante a supervisão do Espírito Santo sobre os autores sagrados. Apenas no fim dos anos de 1800, o racionalismo e uma crítica altamente destrutiva começaram a diluir a linha demarcatória entre revelação divina e palavras humanas[8], porém, não sem enfrentar uma forte oposição do movimento fundamentalista do séc. XX.



[1]   MATOS, Alderi Souza de. Op cit. P.222.
[2]   IDEM. PP.223-4.
[3]   IDEM. PP.223-4.
[4]   OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 anos de Ttradição e Rreformas. Editora Vida. São Paulo: SP. 2001. p.573.
[5]   IDEM. PP.224-5.
[6]   Os pontos principais defendidos pelo movimento fundamentalista foram: (1) A inspiração - infalibilidade e inerrância das Escrituras – reagindo contra os ataques do liberalismo que considerava que a Bíblia estava cheia de erros de todos os tipos; (2) A divindade de Cristo – também negada pelos liberais, que insistiam que Jesus era apenas um homem divinizado; (3) O nascimento virginal de Cristo e os milagres – para o liberalismo, milagres nunca existiram, eram construções mitológicas da Igreja primitiva; (4) O sacrifício propiciatório de Cristo – para os liberais, Cristo havia morrido somente para dar o exemplo, nunca pelos pecados de ninguém e (5) Sua ressurreição literal e física e seu retorno – ambas doutrinas eram negadas pelos liberais, que as consideravam como invenção mitológica da mente criativa dos primeiros cristãos (LOPES, Augustus Nicodemus. Fundamentalismo e Fundamentalistas: Esclarecimentos sobre fundamentalismo. Op cit. PP.6-7).
[7]   OLSON, Roger. 2001. Op cit. p.583.
[8]   COUCH, Mal (Editor). Os Fundamentos para o Século XXI: Examinando os principais temas da fé cristã. Editora Hagnos. São Paulo: SP. 2009. p.115.



Paolo é casado com a Amanda Freitas e tem duas filhas, a Nina e a Lana. Formado em Pastoral e Educação Cristã pelo Palavra da Vida e pelo Seminário Teológico Batista em São Paulo, cursando História da Teologia e fazendo Mestrado em Teologia.
paolofreitas@implicacoes.com