Uma fé implicante

Uma fé implicante
26 de junho de 2015

01:44
Dado o fato de a doutrina da dupla autoria das Escrituras (divina e humana) ser aceita por mais de 18 séculos, creio ser mais saudável concordar com ela. Mas não apenas por isto, também creio melhor reconhecer a dupla autoria das Escrituras pelo próprio ensino desta doutrina encontrado em suas páginas. A seguir, apresentarei uma análise das Escrituras contendo uma abordagem conciliatória entre a autoria humana e divina. Hoje, veremos como a própria Bíblia afirma ter sua autoria no ser humano. E no próximo artigo veremos Como ela afirma ser um produto divino.

A Bíblia como Palavras Humanas

Não se pode negar o fato de que a Bíblia foi escrita por homens. Isto é evidentemente comprovado em suas páginas, quando se lê, por exemplo, Deus ordenando a Moisés que escrevesse um relato: “Escreve isto para memorial num livro, e relata-o aos ouvidos de Josué, que eu hei de riscar totalmente a memória de Amaleque de debaixo do céu” (Êx 17.14). Ou Paulo, que em suas cartas, sempre se apresenta como o autor: “Paulo, servo de Jesus Cristo... à igreja de Deus...” (Cf. 1Co 1.1-2; Rm 1.1-7; 2Co 1.1; Gl 1.1-2; Ef 1.1, etc.). 

Porém, para facilitar o entendimento sobre o papel dos escritores humanos em seus respectivos registros, a seguir, dividiremos tal papel entre passivo e ativo. 

O papel passivo dos autores humanos das Escrituras implica no fato de que tais autores não interferiram na ação de Deus em se revelar e, também, no fato de que não expressaram sua natureza pecaminosa sobre os escritos. Os escritores humanos foram instrumentos por meio do qual Deus decretou registrar a sua mensagem (2Pe 1.21). Porém, eles falaram somente à medida que foram conduzidos pelo Espírito Santo. Com isso, entendemos que a Escritura não é maniqueísta: tendo por um lado a Palavra de Deus e, de outro lado, a palavra dos autores humanos. Nem é ela o produto de uma decisão humana e falível; é todavia, “exalada por Deus” (θεόπνευστος – inspirada por Deus; 2Tm 3.16)[1].

Quanto ao papel ativo dos autores humanos das Escrituras, vê-se que este se dá no fato de que Deus não anulou a personalidade dos escritores, pois se assim fosse, a Bíblia teria um único e inconfundível estilo, o estilo do Espírito Santo. O que não é a realidade. Pois quer nos escritos originais, quer através das traduções, é facilmente percebida a diferença de estilo entre os escritos de Moisés, Isaías, Amós, Mateus, Marcos, Lucas, Paulo, etc. Justamente por isso, podemos afirmar que, de certa forma, cada livro das Escrituras é fruto do estilo literário do seu autor humano[2]. 

Afinal, nas Escrituras se encontra romance, como na história de Sara, de Rebeca, de Rute, etc. Encontra-se legislação, como nas leis de Moisés. Encontra-se história, como no caso dos reis de Israel e de Judá, da pessoa de Jesus e de sua Igreja. E nela ainda se encontra poesia, como no lindo Salmo 23, e profecia - um terço da Bíblia é profecia[3].

Também é por isso que dentro da inspiração há lugar para assuntos pessoais como, por exemplo, a Epístola de Paulo a Filemon, bem como para recomendações pessoais específicas (Cf. Fl; 1Tm 5.23; 2Tm 4.13). 

Segundo Hermisten Maia (2013), 
Os escritores sagrados não foram obrigados a escrever nada que fosse contrário a sua vontade; nem Deus fez com que, quem só soubesse o hebraico, tivesse que escrever em grego; Deus usou as suas aptidões “naturais” de forma misteriosa, de tal forma, que o produto final fosse o registro inerrante da Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, houvesse a expressão da individualidade de cada escritor (COSTA, Hermisten Maia Pereira de. Op cit. pp.100-1)[4]. 

Deste modo fica fácil entender que de fato as Escrituras são de origem humana. Mas nem por isto elas deixam de ter sua origem em Deus como veremos no próximo artigo.
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[1]   COSTA, Hermisten Maia Pereira de. Creio: no Pai, no Filho e no Espírito Santo. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p.99.
[2]   IDEM. PP.99-100.
[3]   CRISWELL, W. A. A Bíblia para o Mundo de Hoje. Casa Publicadora Batista. Rio de Janeiro: RJ. 1968, p.32.
[4]   COSTA, Hermisten Maia Pereira de. Op cit. pp.100-1.

por Paolo Freitas

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