TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

22 de maio de 2015

17:00
No artigo anterior vimos que para a teologia liberal, os autores humanos foram gênios religiosos, cooperadores com o Espírito divino de forma tão completa que seus escritos tinham uma qualidade inspiradora, porém, sem nada de sobrenatural. Deste modo os teólogos liberais deram continuidade as conclusões Iluministas reconhecendo apenas a autoria humanas das Escrituras. 

Hoje veremos como a crescente influência da teologia liberal fez surgir no início do século XX o movimento que já recebeu vários nomes, dentre eles, “teologia dialética”, “teologia da crise”, “nova teologia da Reforma”, “bartianismo” ou a expressão mais conhecida: “neo-ortodoxia”. Além disso, também vermos se modo sintetizado o que foi o movimento conhecido como A Demitologização das Escrituras. 

A Neo-Ortodoxia

A neo-ortodoxia foi na verdade, uma reação tanto contra o liberalismo quanto contra o fundamentalismo (que veremos num artigo próximo). A essência da neo-ortodoxia está no conceito de revelação, centrada na Palavra de Deus, que não é o mesmo que as Escrituras. A neo-ortodoxia rejeitou a teologia natural como a abordagem racional ou experimental do conhecimento de Deus. Ela forçou os teólogos liberais a levar mais a sério o pecado e o mal, assim como a transcendência de Deus[1]. 

Karl Barth (1886-1968) foi o proponente da neo-ortodoxia, e é considerado o teólogo mais destacado e influente do século XX. O principal tema da neo-ortodoxia é o seu conceito da revelação divina. Em contrataste com a revelação geral de Deus na experiência humana e na história (liberalismo) ou no conteúdo proposicional da Bíblia (conservadores), Barth insistiu que Deus só se revela direta e pessoalmente. A Palavra de Deus não é alguma coisa distinta de Deus, mas o próprio Deus se comunicando, e isso só pode acontecer em Jesus Cristo, que é a verdadeira Palavra ou revelação de Deus, como preexistente e personagem histórico. Assim, a revelação não é um princípio universal genérico, mas uma pessoa específica, Jesus Cristo[2].

Barth entendia que a Bíblia não equivale à Palavra de Deus, mas é uma de suas manifestações secundárias. A Bíblia é o testemunho da Palavra de Deus na pessoa de Jesus Cristo e se torna a Palavra de Deus quando este decide usá-la para confrontar uma pessoa com o evangelho. Assim, para Barth, a Bíblia é totalmente humana e pode conter erros, porque Deus sempre usou testemunhas falíveis[3].

Emil Brunner (1889-1966) foi outro teólogo neo-ortodoxo destacado. Para ele a Bíblia é simplesmente uma formulação discursiva do homem, sendo apenas uma testemunha da real revelação. Assim, Brunner chega a mesma conclusão que Barth ao dizer que já que a Bíblia é um livro humano, ela pode conter falhas[4]. 

Em suma, a neo-ortodoxia propõe que a revelação está centrada em Jesus Cristo, sendo as Escrituras periféricas a Ele. Jesus é a Palavra, servindo a Bíblia como testemunha desta Palavra (Jesus Cristo). Assim, existem partes mais importantes que outras na Bíblia, especialmente as que testemunham de Cristo, com graus distintos de inspiração. Dá se início da ideia de um cânon dentro do cânon, que desemboca na perspectiva existencialista quanto a Cristo e as Escrituras, enfatizando um encontro subjetivo e existencial com a Palavra. Por isso, dentro da neo-ortodoxia, a Bíblia é apenas um produto humano que contém, mas não é a Palavra de Deus[5]. 

A Demitologização das Escrituras 

Outro destacado teólogo do século XX foi o luterano alemão Rudolf Bultmann (1884-1976), que lecionou na Universidade de Marburg desde 1921 até 1951. Bultamann foi influenciado pelo existencialismo, e esteve ligado à teologia neo-ortodoxa de Barth. Porém, não rompeu com o liberalismo. 

Para Bultmann a Bíblia contém relatos mitológicos do relacionamento entre Deus e o homem. E embora algumas partes tenham valor e exatidão históricos, os escritores bíblicos, únicos autores das Escrituras, adicionaram aos fatos uma dimensão espiritual, a qual é inexistente, transformando-os em milagres. Por isso, segundo Bultmann é fundamental demitologizar (retirar os mitos) a Bíblia[6], pois apenas ao transpor os mitos, encontrará as verdades necessárias à existência humana[7].

Ou seja, assim como a neo-ortodoxia, este movimento também concordou que a Bíblia é um produto humano que contém, mas não é a Palavra de Deus.




[1]   MATOS, Alderi Souza de. Op cit. pp.233-4.
[2]   IDEM. P.236.
[3]   MATOS, Alderi Souza de. Op cit. p.236.
[4]   ASSIS, Jefté Alves de. A Revelação na Teologia Neo-Ortodoxa de Emil Brunner: Exposição e Crítica. Disponível em <www.monergismo.com>. Acesso em 10/06/2014.
[5]   CARDIN, Hélder. Apostila de Bibliologia. Seminário Bíblico Palavra da Vida. 2014.
[6]   CARDIN, Hélder. Op cit.
[7] MATOS, Alderi Souza de. Op cit. P.241. 


Paolo é casado com a Amanda Freitas e tem duas filhas, a Nina e a Lana. Formado em Pastoral e Educação Cristã pelo Palavra da Vida e pelo Seminário Teológico Batista em São Paulo, cursando História da Teologia e fazendo Mestrado em Teologia.
paolofreitas@implicacoes.com