Uma fé implicante

Uma fé implicante
10 de abril de 2015

17:00

Hoje veremos como os principais reformadores concebiam a doutrina da Origem das Escrituras. Para isto, é importante lembrar que a Reforma Protestante do século XVI surge como um movimento restaurador primariamente religioso, mas que toma proporções políticas, econômicas e sociais. A Igreja Católica Medieval desde o séc. IX estava totalmente corrompida. No séc. XVI a insatisfação política e religiosa toma conta dos povos europeus contra a Igreja Romana. Com tudo isso, várias tentativas de mudança e reforma da Igreja já haviam acontecido nos séculos anteriores, mas agora, no séc. XIV, sob a liderança de Martinho Lutero que protestava contra os abusos do bispo de Roma, a reforma da igreja acontece. Porém, em vez de reformar a Igreja Católica, os protestos iniciados por Lutero deram origem as Igrejas Protestantes. Sendo que as quatro principais manifestações protestantes do séc. XVI foram: luteranismo, calvinismo, anabatismo e anglicanismo1.

Martinho Lutero, figura central da Reforma Protestante, reconhecia a dupla natureza da Bíblia. Ele propoz que a interpretação bíblica correta é alcançada quando se busca a intenção do autor humano das Escrituras como sendo o sentido pretendido pelo Espírito Santo, e portanto o único sentido verdadeiro do texto2. Porém ele chega ao ponto de atribuir ao Espírito Santo, o que ele considera ser imprecisões gramaticais da parte de Paulo. Por exemplo, em seu comentário de Gálatas, ao explicar o texto do capítulo 2, verso 6, onde Paulo omite algumas palavras numa sentença, Lutero afirma: é perdoável quando o Espírito Santo, falando através de Paulo, cometa alguns pequenos erros de gramática3

Ulrico Zuínglio assim como Lutero, enfatizava fortemente o princípio de que a Bíblia é a autoridade final para a fé e práticas cristãs e que se encontram em posição totalmente superior as tradições humanas (diferente do proposto pela Igreja Católica). Porém, diferente de Lutero que concebia um “cânon dentro do cânon”, Zuínglio identificava a Bíblia inteira como sendo a Palavra de Deus. Foi com ele que a doutrina reformada da Bíblia assumiu a condição privilegiada: sola Scriptura4.

João Calvino, também reconhecia a dupla natureza das Escrituras. Em seus comentários sobre as epístolas pastorais, ele argumenta: 

Eis aqui o princípio que distingue nossa religião de todas as demais, ou seja: sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes aceitar isto como um princípio estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-prazer dos homens ou produzidos pelas mentes humanas como uma fonte, senão que foram ditados pelo Espírito Santo (João Calvino, As Pastorais, [2Tm 3.16], p.262)5.

Desse modo, desde o início da Igreja Cristã até o período Pós-Reforma Protestante vemos que nunca houve grandes controvérsias sobre a origem das Escrituras. A igreja e os teólogos cristãos sempre conceberam as Escrituras com um livro tanto divino quanto humano, sendo a Bíblia a revelação de Deus mediada por autores humanos.

No próximo artigo veremos como o movimento que ficou conhecido como Iluminismo afetou a visão dos teólogos acerca Origem das Escrituras. Que Deus o abençoe.
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1. MATOS, Alderi Souza de. O Pensamento Teológico 
2. LOPES, Augustus Nicodemus. Lutero Ainda Fala: Um Ensaio em História da Interpretação Bíblica. Diponível em: <HTTP://www.monergismo.com/textos/bibliologia/augustus_lutero_interpretacao.htm>. Acesso em: 09/06/2014. 
3. LUTERO, Martinho. Cometário a Epístola de São Paulo aos Gálatas. 2ª versão. 1535. In: LOPES, Augustus Nicodemus. Lutero Ainda Fala: Um Ensaio em História da Interpretação Bíblica. Diponível em: <HTTP://www.monergismo.com/textos/bibliologia/augustus_lutero_interpretacao.htm>. Acesso em: 09/06/2014. 
4. OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. Editora Vida. São Paulo: SP. 2001. P.411.
5. CALVINO, João. As Pastorais. p.262. In: COSTA, Hermiten Maia Pereira da. A Inspiração da Escritura: Sua Perfeição e Harmonia. São Paulo: SP. 2009. p.4.



Paolo é casado com a Amanda Freitas e tem duas filhas, a Nina e a Lana. Formado em Pastoral e Educação Cristã pelo Palavra da Vida e pelo Seminário Teológico Batista em São Paulo, cursando História da Teologia e fazendo Mestrado em Teologia.
paolofreitas@implicacoes.com

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