Uma fé implicante

Uma fé implicante
24 de abril de 2015

17:00
Seguindo com a série “A Bíblia: um livro divino ou um livro humano?” hoje veremos como o que foi e como o movimento que ficou conhecido por Iluminismo influenciou a visão acerca da doutrina da origem das Escrituras.

O iluminismo foi um movimento surgido no início do século XVIII que tinha em sua essência uma revolta contra o poder da religião institucionalizada e contra a religião em geral. As pressuposições filosóficas do movimento acarretaram nas ideias racionalistas, pelo que muitos teólogos afirmavam a existência de Deus, mas negavam Sua intervenção na história humana, quer através da revelação, quer através de milagres ou da providência. O resultado da invasão racionalista na teologia foi a conclusão de que o sobrenatural não invade a história[1].

Immanuel Kant (1724-1804) foi o principal pensador do Iluminismo. Sua conclusão dentro do pensamento Iluminista da época foi que o propósito da religião é auxiliar a vida moral, e o princípio básico da responsabilidade moral tem sua fonte na razão e não na revelação[2]. Deste modo, o conceito de que Deus se revela ao homem e de que Ele intervém e atua na história humana foram excluídos do âmbito teológico. Tanto a criação, quanto os milagres e o sobrenatural passam a ser desacreditado. Para se interpretar corretamente a Bíblia seria necessária uma abordagem “não religiosa”, desprovida de conceitos do tipo “Deus se revela”, ou “A Bíblia não erra e não pode errar”[3]. 

Os estudiosos iluministas argumentaram que para chegar aos fatos por detrás do surgimento da religião de Israel e do cristianismo, seria necessário abandonar os dogmas e teologia sistemática, e tentar entender e reconstruir os fatos daquela época. O principal critério a ser empregado nessa empreitada seria a razão, que os racionalistas entendiam como sendo a medida suprema da verdade[4].

Com isso, muitos pastores e teólogos que criam que a Bíblia era a Palavra de Deus, influenciados pela filosofia da época, tentaram criar um sistema de interpretação da Bíblia que usasse como critério somente o que fosse racional ao homem moderno, dando origem ao chamado "método histórico-crítico" de interpretação bíblica. Este método defendia que o "dogma" da inspiração divina da Bíblia deveria ser deixado fora da exegese. 

É neste momento da história da Igreja que se separa a Palavra de Deus da Escritura Sagrada, ou seja, se rejeita o conceito da inspiração e infalibilidade da Bíblia e surge a ideia de "mito" na Bíblia, que era a maneira pela qual a raça humana, em tempos primitivos, articulava aquilo que não conseguia compreender[5]

Porém, a tentativa de unir o Racionalismo com a exegese bíblica não produziu um efeito satisfatório. Um dos resultados foi que a Bíblia deixou de ser considerada Palavra de Deus para se tornar o testemunho de fé da nação de Israel e da Igreja Primitiva, ou seja, a Bíblia passa ser considera apenas como um livro humano e não mais divino. Outro resultado foi o surgimento de um movimento dentro do cristianismo que se chamou liberalismo, o qual abordaremos no próximo artigo desta série.

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[1]   LOPES, Augustus Nicodemus. Fundamentalismo e Fundamentalistas: Esclarecimentos sobre fundamentalismo. Igreja Presbiteriana do Brasil.
Disponível em: <http://www.ipb.org.br/informativos/fundamentalismo-e-fundamentalistas-1449 Acesso em 27/05/2014> Acesso em: 04/06/2014.
[2]   MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da Teologia Histórica. Editora Mundo Cristão. São Paulo: SP. 2008, pp.208-9.
[3]   IDEM. Ibid.
[4]   IDEM. P.5.
[5]   MATOS, Alderi Souza de. Op cit. PP 208-9.

por Paolo Freitas

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