Uma fé implicante

Uma fé implicante
6 de março de 2015

13:03
No último artigo vimos que os Pais da Igreja no séc. II e III já consideravam a Bíblia como um livro escrito por homens, mas sob a influência e autoridade de Deus por meio do Espírito Santo. Hoje olharemos para outros Pais da Igreja e também veremos qual era o conceito da origem das Escrituras no período Escolástico. 

Começando pelos Pais da Igreja, Jerônimo (347-420d.C.), o famoso comentarista e tradutor bíblico - autor da Vulgata (versão latina das Escrituras usada até hoje pela Igreja Católica), compartilhava do entendimento de que as Escrituras têm uma origem tanto divina quanto humana. Vemos que ele reconhecia a autoria humana, por exemplo, na introdução do seu comentário de Isaías: “[...] Este livro é como um compêndio de todas as Escrituras, e contém em si tudo o que a língua humana pode exprimir e a inteligência dos mortais pode compreender”1.

Agostinho, o bispo de Hipona (354-430d.C), um dos doutores e um dos principais teólogos de toda história da Igreja, também defendia que as Escrituras possuíam dois autores a serem reconhecidos, o divino e o humano. Para ele, Deus fala por meio dos hagiógrafos (escritores sagrados). Em suas palavras, “a Bíblia é o livro de Deus, carta que nosso Pai celeste nos envia da pátria, e nela o Espírito de Deus fala, mas por meio dos homens”. De fato, em certos momentos Agostinho, querendo enfatizar a autoria divina das Escrituras argumentava que a Bíblia “é a voz de Cristo”. Em outros momentos, colocando em relevo o fator humano das Escrituras, ele argumenta que Deus não falou por si próprio, mas elegeu homens para falar por meio dele2. Assim, para Agostinho, na Bíblia, quem fala é sempre o homem que tem suas intenções próprias e pessoais, mas que sempre o faz em nome de Deus. Justamente por isso, Agostinho entendia que a Bíblia é tanto um livro humano quanto divino3.

João Crisóstomo (347-407d.C.), o advogado, doutor, teólogo, escritor, comentarista bíblico, famoso pregador da Palavra de Deus e bispo da cidade de Constantinopla, também entendia que as Escrituras possuíam dupla natureza. E ele deixa isto registrado ao historiar que “[...] quando escreve Paulo, melhor dito, não Paulo mas a graça do Espírito, dita uma carta a toda uma cidade...”4.


O Escolasticismo 

Durante a Idade Média, importantes movimentos intelectuais surgem. E o principal destes movimentos foi o Escolasticismo. Este movimento intelectual buscou conciliar a filosofia natural de Aristóteles (conquistada com processos naturais) com a teologia revelada nas Escrituras (aceita pela fé) com o objetivo de formar um sistema doutrinário claro e definido. Dentre os teólogos escolásticos, o principal deles foi Tomás de Aquino5.

Tomás de Aquino (1224-1274) foi um monge dominicano e professor na Universidade de Paris. Considerado um dos principais teólogos da Igreja cristã. Ele entendia que as Escrituras eram tanto palavras humanas quanto palavras divinas. Em sua Suma Teológica ele afirma que, apesar de ser escrita por homens com estilos literários diferentes, a Bíblia é o único livro com autoridade divina6

No próximo artigo veremos como os principais Reformadores da Igreja lidaram com a nossa questão central. O que será que Lutero, Zuínglio e Calvino disseram acerca da origem das Escrituras? Até o próximo artigo.
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[1] São Jerônimo. Comentério sobre o Livro do Profeta Isaías. In: COUTINHO, Jorge. Elementos de História da Filosofia Medieval. Faculdade de Teologia-Braga, Faculdade de Filosofia Universidade Católica Portuguesa. 3ª Versão. Braga: Portugal. 2008. p.8. 
[2] AGOSTINHO. A Doutrina Cristã – Manual de exegese e formação cristã. (Coleção Patrística). Editora Paulus. São Paulo: SP. 2002. pp.26-27. 
[3] AGOSTINHO. Op cit. PP.26-27 
[4] IDFC – Escola de Leigos. Op Cit. 
[5] FERREIRA, Franklin. A Igreja Cristã na História: das Origens aos dias Atuais. Vida Nova. São Paulo: SP. 2013. p.125. 
[6] GRANCONATO, Marcos. Tomás de Aquino e os Reformadores Protestantes: Divergências e Convergências. p.3.

por Paolo Freitas

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