TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

14 de novembro de 2014

17:00


Dando continuidade em nosso estudo sobre a defesa da sã doutrina, hoje iremos, através das epístolas pastorais observar o que NÃO é a sã doutrina. Portanto, vamos juntos para as Escrituras...

Em 1Timóteo 1.3-7 vemos que Paulo deixou Timóteo em Éfeso para repreender as pessoas da igreja a não ensinarem outra doutrina e a não se ocuparem com fábulas e genealogias sem fim, que conduzem a discussões ao invés de conduzirem ao serviço de Deus na fé. Assim, entendemos que a sã doutrina nada tem a ver com fábulas (ditos, contos inventados e falsos), e genealogias sem fim (conversas que não levam à lugar algum). 

No verso 5, Paulo fala que o objetivo da carta era o amor, procedente de um coração puro, uma consciência boa e de uma fé sem hipocrisia, e no verso 6, ele diz que algumas pessoas se desviaram destas coisas e por isso se perderam em loquacidade frívola (conversa fiada, vazia), tentando se passar por mestres. Logo, a sã doutrina também não está relacionada com conversa fiada, e nem mesmo com o intuito de se tornar mestre na lei. 

Em 1Timóteo 4.1-7, Paulo cita algumas coisas que os falsos mestres estavam fazendo e que claramente se opunham a sã doutrina, a saber: obedecer espíritos enganadores e a ensinos de demônios, seguir a hipocrisia dos que falam mentira por terem suas mentes cauterizadas, bem como as exigências não bíblicas tais como a proibição do casamento ou a exigência da abstenção de certos alimentos. Além de citar as fábulas profanas de velhas caducas. Todas estas coisas não se associam com a sã doutrina.

Em Tito 1.10-14, Paulo fala a Tito como o presbítero deveria ser apegado à palavra fiel, à sã doutrina, e logo na sequência, ele mostra porque os presbíteros deveriam ser assim, à saber, porque há muitas pessoas que são: insubordinados palradores frívolos (lit. papudos, que falam coisas vazias), enganadores, que pervertem casas inteiras ensinando o que não devem apenas por ganância. Além disso, ela não tem nada a ver com mandamentos de homens desviados da verdade. Atitudes estas que também nada tem a ver com a sã doutrina. 

Portanto, com base nos textos que vimos, concluímos que a sã doutrina não está relacionada com os homens e seus pensamentos, nem, muito menos, procede dos homens ou de seus pensamentos. Ela não induz ao erro e ao pecado. Não é motivada por ganância. Ela não é algo que os incrédulos conseguem entender e aceitar. Também não é algo que os incrédulos querem aprender.

Mas o que é Sã doutrina? Em 1Timóteo 1.3-4, vemos que Timóteo deveria tomar uma firme posição contra a dissensão provocada por ensinos errôneos[1]. Assim, vemos que a sã doutrina, está relacionada com aquilo que é verdadeiro[2]

No verso 4, vemos que o falso ensino é descrito primeiramente em termos gerais como sendo novidades. O verbo usado pelo apóstolo (heterodidaskalein) significa ensinar uma doutrina diferente. Diferente daquela que Paulo havia ensinado. Depois ele define de forma específica como fábulas e genealogias sem fim. Tais palavras chegam quase a revelar o conteúdo da heresia. Assim vemos que a sã doutrina foi algo que Paulo apresentou/ensinou a igreja e não deveria ser alterada. Além disso, vemos que neste ensino de Paulo a Timóteo, a doutrina que este deveria ensinar levaria os crentes ao serviço de Deus na fé. 

Para Gordon Fee, ensinar outra doutrina é referente aos falsos mestres de Corinto, que pregavam outro Jesus e outro evangelho. Assim, outras doutrinas são perversões claras do evangelho puro. Logo, sã doutrina, ou doutrina, podem serem entendidas como o puro/verdadeiro evangelho[3].

Em 1Timóteo 1.10-11, Paulo usa a “sã” com a conotação de “sadio” ou “razoável”, e aplica-a aqui para designar a mensagem cristã autêntica conforme é aplicada à conduta. Assim, ele expressa sua convicção de que uma vida moralmente desregrada é, por assim dizer, doentia, e necessita de tratamento, ao passo que uma vida baseada no ensino do evangelho é limpa e sadia[4].

No verso 11, Paulo associa a sã doutrina ao evangelho da glória do Deus bendito. Lembramos então que para Paulo tal evangelho glorioso de Deus pode ser compreendido em que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras (1Coríntios 15.3-4). Isso é sã doutrina.

Em 1Timóteo 6.3-5, vemos claramente que a sã doutrina vem de Jesus Cristo. Gordon Fee argumenta que Jesus é a origem suprema da fé, ou “piedade”, que Paulo proclamava[5].

Em 2Timóteo 4.3-4, a ordem central do verso é pregar a Palavra (v.2). Essa ordem é tão importante que Paulo detalha-a nos versos seguintes, sendo que nos versos 3 e 4 ele explica o motivo desta ordem, a saber, que as pessoas não querem ouvir a sã doutrina (como veremos adiante). Logo, podemos associar a sã doutrina com a palavra que deve ser pregada. E olhando para o contexto da passagem vemos que Paulo havia explicado o que era a palavra que deveria ser pregada, ou seja, Toda Escritura (cf. 3.16-17). Logo, a sã doutrina pode ser entendida também como Toda a Escritura que é inspirada por Deus.

Portanto, através das epístolas pastorais, concluímos que sã doutrina de forma mais ampla como Toda a Escritura que é divinamente inspirada por Deus e, de forma mais específica o próprio evangelho. Além disso, sã doutrina é aquilo que foi ensinado por Jesus aos apóstolos e por estes aos seus discípulos. Ademais, sã doutrina compreende a verdade e aquilo que é saudável e bom.
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[1] KELLY. J. N. D. I e II Timóteo e Tito, introdução e comentário. Cultura Cristã. São Paulo, SP.     1983. p.50.
[2] Segundo o Sistema de Biblioteca Digital Libronix, neste texto a palavra doutrina pode ser entendida também como verdade.
[3] FEE. Gordon D. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – 1 e 2 Timóteo, Tito. Editora Vida. [S/l]. 1994. p.50.
[4] IDEM p.57.
[5] Fee p.153.

por Paolo Freitas