Uma fé implicante

Uma fé implicante
7 de junho de 2013

15:26
Por Lou Markos
Por 13 semanas do semestre do outono de 2012 (A-M), e 13 semanas do semestre da primavera de 2013 (N-Z), estarei explorando o legado de C. S. Lewis. Professor, apologista, romancista, crítico literário, escritor de obras de fantasia, filósofo, teólogo e eticista, Lewis tem exercido uma influência profunda na maneira em que milhões de pessoas leem literatura, fazem escolhas morais, pensam a respeito de Deus e vivem a fé cristã. Por meio de uma mistura genial de razão e imaginação, lógica e fantasia, profunda perspicácia acadêmica e o bom e velho senso comum, Lewis tem desafiado o mundo moderno a reexaminar as declarações de Cristo, da Bíblia, da Igreja, a reexperimentar a bondade, a verdade e a beleza da literatura e a reexpandir sua visão de Deus, homem e o universo. Em 600 palavras, eu irei alistar o auxílio de Lewis da forma como o tenho estudado, tanto de maneira teórica como de maneira prática. Trata-se de um assunto de interesse perene à humanidade e de interesse particular ao século 21.
Como professor de inglês, passei as duas últimas décadas orientando universitários através de grandes livros da tradição intelectual ocidental. No entanto, apesar de ter lecionado (e adorado) as obras de Homero, Sófocles, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Milton e Dickens, eu não hesito afirmar que Aslam é um dos personagens supremos de toda a literatura. Embora muitos leitores presumam que Aslam, o leão rei de Nárnia que morre e ressuscita, seja uma alegoria de Cristo, o próprio Lewis discordava disso.
De acordo com o seu criador, Aslam não é uma alegoria de Cristo, mas é o Cristo de Nárnia. A distinção é vital. Se Aslam fosse apenas uma alegoria, um mero substituto do herói dos Evangelhos, ele não envolveria tanto seus leitores como ele envolve. Na verdade, como Lewis explicou, Aslam é como a segunda pessoa da Trindade (Deus Filho) teria sido caso ela tivesse encarnado em um mundo mágico de animais falantes e árvores vivas. Como tal, Aslam assume uma força e uma realidade que fala conosco através das páginas das Crônicas de Nárnia.
Em Aslam, nós verificamos todos os poderosos paradoxos do Filho encarnado: ele é poderoso, mas gentil, cheio de uma ira justa e rico em compaixão; ele inspira assombro e até terror (pois não é um leão domesticado) e, ainda assim, ele é tão belo quanto é bom. O mundo moderno fendeu o Antigo e o Novo Testamento nos deixando com duas divindades aparentemente irreconciliáveis: um furioso, irado Yahweh que ninguém pode se aproximar, e um Jesus meigo e brando que é muito acanhado para defender seus seguidores do mal. Aslam reintegra – não apenas intelectual e teologicamente, mas também emocional e visceralmente – os dois lados do Deus trino que clama por nós em cada página da Bíblia, de Gênesis a Apocalipse.
Sempre que uma personagem entra na presença de Aslam, ele aprende, para sua grande surpresa, que algo pode ser tanto terrível quanto belo, que pode provocar, simultaneamente, sentimentos de medo e alegria. Emprestando uma palavra de Rudolf Otto, Lewis referia-se a esse sentimento dualista ao numinoso. O numinoso é o que Isaías e João sentiram quando foram carregados, tremendo e assombrados, até à sala do trono de Deus, e ouviram os querubins de quatro faces proclamarem: “Santo, Santo, Santo!”. É aquilo que Moisés sentiu quando permaneceu diante da sarça ardente, aquilo que Jacó sentiu quando lutou durante toda a noite com Deus, aquilo que Jó sentiu quando Jeová falou com ele através de um redemoinho, ou aquilo que Davi sentiu quando se viu culpado de seu pecado com Bateseba e experimentou, de uma só vez, o julgamento iroso e a infinita misericórdia do Santo de Israel.
Nossa era perdeu o senso do numinoso, pois perdeu o senso do sagrado. Através da personagem de Aslam, Lewis não apenas nos instrui sobre a natureza do numinoso, mas nos treina a como reagir quando estivermos em sua presença. Ao terminarmos de ler as Crônicas de Nárnia, talvez não sejamos capazes de definir o numinoso, mas sabemos que o sentimos sempre e cada vez que Aslam surge em uma página.
Tradução: Jonathan Silveira. Tuporém.

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