TEOLOGIA

PARA O DIA-A-DIA

3 de maio de 2013

14:50
por Jonathan Silveira

Por que Deus ordena que nós o adoremos? Ele é vaidoso ou carente? Certamente Deus não é vaidoso ou carente. Deus não precisa de nada. Ele não precisava ter nos criado. Ele não precisa de nossa adoração, nós é que precisamos Dele.

O apóstolo Paulo afirma:

“Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11.34-36 – RA).
E o apóstolo João diz:
“Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. [...] Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1João 4.10, 19 – RA).
Portanto, Deus não precisa de nós. Nós é que precisamos Dele. Por quê?
Fiódor Dostoiévski dizia que “no homem há um vazio do tamanho de Deus”. Isso significa que nada pode satisfazer e dar sentido ao homem, a não ser Deus. O homem deseja muitas coisas. Ele tenta preencher esse vazio com consumismo, álcool, drogas, sexo, música, comida, esportes, livros etc., mas nada disso satisfaz o homem. O efeito dessas coisas é apenas paliativo. No fundo, o que todas essas coisas revelam é que, por trás desses desejos, está o desejo pela eternidade. Deus colocou no coração do homem o desejo pela eternidade, como diz Eclesiastes 3.11.
Portanto, se o nosso desejo é eterno, somente algo eterno pode satisfazer esse desejo, ou seja, Deus. Deus nos criou para que Nele pudéssemos encontrar satisfação; para que pudéssemos desfrutar do mesmo relacionamento amoroso que o Pai, o Filho e o Espírito Santo desfrutam. E esse relacionamento amoroso que desenvolvemos com Deus é chamado de ADORAÇÃO.
Talvez a confusão esteja nos termos “idolatrar” e “adorar”. A idolatria é nociva, é uma devoção cega a coisas finitas. Adoração, por outro lado, implica um ato de amor e entrega. Não devemos idolatrar a Deus, devemos adorar a Deus.
A respeito do que é adoração, N. T. Wright declara:
“Muitos se sentem um pouco incomodados com o chamado à adoração, interpretando-o como uma ordem dada por um ditador que podemos não gostar, mas que aprendemos a temer. [...] Se isso já passou pela sua cabeça, deixe-me oferecer a você um modelo muito diferente. Eu já estive em muitas apresentações musicais, de grandes orquestras e bandas de jazz. Ouvi as melhores orquestras sob a regência dos melhores maestros. Estive presente em algumas grandes performances musicais, que me deixaram comovido e me proporcionaram grande prazer. Mas apenas em duas ou três ocasiões a plateia se pôs de pé no momento em que o maestro baixou a batuta pela última vez, e aplaudiu entusiasmada, incapaz de conter o prazer e o encanto diante do espetáculo que lhe havia sido proporcionado. (Seria bom informar aos leitores que as plateias inglesas não costumam ser muito pródigas quanto a aplaudir de pé). A adoração genuína é semelhante a isso. A tônica dos capítulos 4 e 5 do Apocalipse é algo parecido com isso, ou talvez mais do que isso. É para isso que somos chamados quando vamos adorar ao Deus vivo. Aqueles que participam de uma apresentação musical assim sentem-se engrandecidos por dentro. Alguma coisa lhes aconteceu, fazendo-os enxergar as coisas de maneira diferente. O mundo inteiro parece diferente. É um pouco como se apaixonar. Na verdade, é um tipo de paixão. Quando você está apaixonado, pronto a lançar-se aos pés da pessoa amada, o que o amor mais deseja, acima de tudo, é união” (N. T. Wright, “Simplesmente cristão”. Ed. Ultimato: Viçosa-MG: 2008. pp. 159-160).
E C. S. Lewis diz:
“O fato mais óbvio sobre o louvor, porém – seja de Deus, seja de qualquer coisa – estranhamente me escapara. Eu o considerava um tipo de elogio, aprovação, ou honra. Jamais eu percebera que toda alegria transborda espontaneamente em louvor a não ser que (e às vezes mesmo se) se permita deliberadamente que a timidez ou o medo de entediar os outros o refreie. O mundo ressoa de louvor: apaixonados louvam suas amadas; leitores, seu poeta favorito; caminhantes, a paisagem; esportistas, seu jogo predileto – louvor do tempo, dos vinhos, dos pratos, dos atores, dos motores, dos cavalos, das universidades, dos países, de personagens históricos, de crianças, flores, montanhas, selos raros, besouros exóticos, e às vezes até de políticos e professores. Eu ainda não tinha percebido como as mentes mais humildes, e ao mesmo tempo mais equilibradas e abertas, louvavam mais, enquanto as rabugentas, desajeitadas e descontentes louvavam menos [...]
Nem percebera eu que, assim como as pessoas louvam espontaneamente o que quer que valorizem, elas espontaneamente nos incentivam a nos juntar ao seu louvor: ‘Ela não é linda? Não foi espetacular? Você não acha que foi maravilhoso?’ Os salmistas, ao dizerem a todo mundo que louvem a Deus, estão fazendo o que todas as pessoas fazem quando falam do que ocupa sua atenção. Minha dificuldade maior e mais geral com o louvor de Deus dependia do absurdo de querer negar, no que tange ao Valor supremo, o que gostamos de fazer, o que na verdade não conseguimos deixar de fazer, acima de qualquer outra coisa que valorizamos.
Creio que gostamos de louvar o que nos alegra porque o louvor não apenas expressa, mas completa a alegria; ele é sua consumação pretendida. Não é pelo elogio que os apaixonados continuam dizendo um ao outro como são belos; o prazer não se completa enquanto não é expresso” (citado em “Em busca de Deus”, John Piper. Ed. Shedd: São Paulo, 2008. pp. 35-36).
Por isso, adorar a Deus é amar a Deus, desfrutando de um relacionamento amoroso com Ele. Deus é o maior ser que possa existir. Consequentemente, fora Dele não há satisfação. Fora Dele, não há amor. E, como já dizia Dostoiévski e C. S. Lewis, o lugar onde o amor não existe é chamado de inferno.
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