Uma fé implicante

Uma fé implicante
2 de maio de 2017
É Possível ser Feliz sem ser Livre?



É Possível ser Feliz sem ser Livre? 

A Bela e a Fera é um tradicional conto de fadas francês. Ele descreve a história de uma moradora de uma pequena aldeia francesa, a Bela, que tem o pai capturado pela Fera e decide entregar sua vida à besta em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. Na verdade tanto a fera quanto a bela agora estavam presos. Prisões diferentes, mas que cerceava o poder de escolhas e de ir e vir. Determinado momento a fera pergunta a bela se ela poderia ser feliz mesmo presa no castelo, é quando a linda moça responde: “- É POSSÍVEL SER FELIZ SEM SER LIVRE? ”

Bem, a despeito de toda a trama e polemicas em torno da nova versão do conto, vamos nos ater aqui a essa questão da liberdade como premissa para a felicidade. Com certeza as discursões sobre a liberdade nem são poucas, muito menos novas. Pensadores gregos como Platão e Aristóteles[1]; medievais como Agostinho de Hipona[2], Tomás de Aquino, Boécio e Anselmo; até pensadores contemporâneos como Sartre[3]; e atuais como Simon Blackburn[4] acentuaram a importância da questão. Esse tema ainda é presente em diversos ramos do conhecimento como história, filosofia, teologia e até neurociência[5]. Tudo isso para se descobrir a verdade sobre o conceito de liberdade[6].
Tudo isso junto, há muito tempo, discutindo sobre esse mesmo assunto. No entanto, o que nos resta perguntar é: “o que eu e você temos a ver com isto e quais são as implicações disso para meu dia-a-dia?” Bom, vamos trazer esta celeuma para nosso campo de estudo teológico. A grande questão entre os teólogos é: como conciliar a infinita soberania de Deus e a finita livre agência[7] do homem? Por isso, seu conceito sobre liberdade das ações do homem vai definir, ou no mínimo dizer algo, sobre a sua teologia e como Deus se relaciona com o homem e com o mundo que Ele criou.

Agostinho de Hipona (354 – 430) foi o primeiro grande teólogo e filósofo a aventurar-se no campo da conciliação entre fé e razão. Para Agostinho o homem não tem a sua liberdade castrada pelo fato de Deus já conhecer o seu futuro. Mas há pensadores[8] que defendem o seguinte silogismo: (1) seres humanos são verdadeiramente livres, (2) se Deus soubesse o futuro absolutamente, os seres humanos não poderiam ser verdadeiramente livres, (3) portanto, Deus não sabe absolutamente tudo sobre o futuro. Esse pensamento é do teísmo aberto que acredita que o futuro não pode ser conhecido. Portanto, Deus sabe tudo o que pode ser sabido – mas Ele não conhece o futuro.

Teologia do processo ou teísmo aberto é a interpretação da realidade pelo processo que proporciona o fundamento para o viver responsável e transformador do mundo, o alvo desejado por eles. Mostrando assim a pertinência da fé cristã para uma cultura cada vez mais imbuída da lógica do devir[9], onde todo o processo continua a ser uma interpretação da realidade. Assim a realidade não é estática e sim um processo. Por isso Deus é exemplificação máxima de todos os indivíduos. Deus e o mundo são interdependentes.

As principais características desta teologia são:

1. Seres humanos são verdadeiramente livres (só pode haver real relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de Deus);

2. Deus ignora o futuro (se Deus soubesse o futuro absolutamente, os seres humanos não poderiam ser verdadeiramente livres, assim ele é determinado pela combinação do que Deus e suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois Deus vive no tempo, e não fora dele);

3. Deus é vulnerável: Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos e orientações;

4. Deus muda: Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e até mesmo se arrepende de decisões.

5. O atributo mais importante de Deus é o amor.

Vamos contrapor essas ideias usando os seguintes argumentos bíblicos:

1. O que vem a ser verdadeiramente livre na concepção deles? Se verdadeiramente significa perfeitamente ou de fato real, qual é o parâmetro bíblico para isso? Vamos pensar num ambiente perfeito descrito pela bíblia que é o céu com a presença do Senhor Deus. Lá, com certeza, será tudo realmente perfeito. Acredito que no nosso espaço tempo limitados temos noção, do que Deus permitiu que conhecêssemos, do que é real. E o que a bíblia nos diz é real a todo tempo[10]. Lá no céu nossa mente e corpo, completamente renovados, não terão a opção de pecar. Não teremos essa “liberdade”. Logo, isso é falso? Pelo fato de não termos essa opção isso não é real ou verdadeiro? Então não estaremos amando a Deus de verdade? Ou não estaremos verdadeiramente livres? Ainda podem dizer: - mas no céu é outra coisa, é outro contexto. Dai teríamos que começar a relativizar tudo, e quando se relativiza tudo quem é o certo e qual é o parâmetro? O que é real sempre será real e o que verdadeiro sempre será verdadeiro. Aqui ou lá o que mudará é que lá alcançaremos a plenitude de tudo que o Senhor prometeu. Hoje vivemos no dilema “já, mas ainda não”.

2. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Deus é autodeterminado[11], assim o homem, em todos os tempos. Deus sempre age segundo Sua escolha e faz como Lhe apraz, assim também o homem. Deus não pode transcender-se e agir contrário ao Seu caráter. Nem o homem o pode. Deus está sempre determinado para o bem. O homem, depois da queda, está sempre determinado para aquilo que é espiritualmente mau. Um homem regenerado está determinado, em geral, para aquilo que é bom. O homem não pode fazer diferente que continuar pecando por causa do seu estado natural (Jr 17:9; Pv 4:23; Jó 14:4; Jr 13:23; Jo 6:65; Rm 8:7,8; I Co 2:14). Mas sua continuação no pecado se deve ao seu próprio caráter que lhe causa escolher as trevas mais que a luz (Jo 3:19). A diferença entre os estados não regenerados e regenerados não é em consideração à liberdade da vontade senão no fato que, antes da regeneração, o homem é o “escravo do pecado” (Jo 8:34), enquanto que, depois, os crentes são pelo poder da nova vida “escravos[12] de Deus” (Rm 6.22), “escravos de Jesus” (1 Co 7.22), e “escravos da justiça” (Rm 6:18). Em ambos os casos os homens são servos e a vontade está sujeita ao caráter, sendo tão livre num caso como no outro[13].

3. Agora se você acha ruim ser escravo de Cristo lembre-se que Jesus é perfeito, Suas ordens são perfeitas, Seus desígnios são perfeitos, Sua vontade é boa perfeita e agradável, Seus sentimentos são perfeitos, ou seja, sendo propositalmente redundante, Ele É. Quem é você? O que há de bom em você por você mesmo sem Cristo? Onde suas decisões têm levado você? Como teus sentimentos tem se mostrado? Logo, meu caro, eu prefiro ser escravo de um Senhor perfeito do que ser livre e seguir a minha natureza pecaminosa.

4. Deus tem sido desde toda a eternidade (Jo 5.24) e como sua causa de existência se encontra nele próprio Ele não tem término ou fim (1 Rs 8.27; Atos 17.24), não estando sujeito ao tempo (Gn 21.33; Sl 90.2); sendo infinito e eterno Deus está acima da possibilidade de mudança (Ml 3.6; Tg 1.17; Sl 102.27; Hb 13.8); tem poder ilimitado para fazer qualquer coisa que queira pois não é condicionado nem limitado por qualquer pessoa fora dEle mesmo (Mt 19.26; Jó 42.2; Sl 93.3-4); Ele tem o conhecimento de todas as coisas pois é infinitamente inteligente (Rm 11.33; Jó 11.7-9; Is 40.28; Mt 11.21). Em contradição ao teísmo aberto, o Salmos 139, versos 4 e 16 declaram: “Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda... e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda”. Como Deus poderia prever detalhes sobre Jesus Cristo no Antigo Testamento se Ele não conhecesse o futuro? Como Deus poderia de alguma maneira garantir a nossa salvação eterna se Ele não soubesse e estivesse no controle de tudo o que haveria de acontecer no futuro?

5. "Deus é amor", encontramos essa afirmação em 1 João 4.8 e 16, e podemos ver a centralidade da ética bíblica desse amor que imita o amor de Deus (Êx 20.1-3; Dt 6.4-9; Jo 13.34,35; ICo 13; Fl 2.1-11; Uo 3.16; 4.10). Mas será que estas passagens são suficientes para colocar este atributo de Deus como superior ao outros? Será que Deus é menos santidade e mais amor? Ou menos justiça e mais amor? Certo é que não se tem base bíblica para colocar um atributo maior que outro, mas levando em consideração que Deus é perfeito será mais contextualizado biblicamente pensar que Deus é tudo o tempo todo. Logo, quando formos pensar em Deus não há como pensar nEle sem todos Seus atributos juntos ou muito menos com Seus atributos guerreando entre si para ver qual o que se sobressai. Isso sim pareceria tendencioso. O amor de Deus é um amor justo, um amor eterno, um amor soberano, um amor onipotente, um amor soberano e um amor imutável.

O conceito do teísmo aberto não é, portanto, bíblico. É simplesmente outra forma de o homem finito com a sua mente finita tentar entender um Deus infinito. Mesmo que o teísmo aberto seja uma explicação para a relação entre o pré-conhecimento de Deus e a livre agência do ser humano, o mesmo não é explicação bíblica. O dualismo soberania de Deus e livre agencia do homem existe, mas seria mais intelectualmente honesto afirmar: - “não sei como estes dois fatos se conjugam, mas está na bíblia”. Como diria um professor meu: “o homem é como uma flecha lançada ao ar. Ela está livre e voando, mas há um arqueiro que a lançou em direção a um alvo.” [14]

Logo, respondendo a Bela, devemos lembrar que NÃO HÁ COMO SER FELIZ SEM SER LIVRE. Mas a liberdade aqui não é a da prisão de quatro paredes, pois Paulo passou seus últimos dias preso e esteve feliz em Cristo, basta ler suas cartas da prisão. Porém, trata da LIBERDADE PARA FAZERMOS ESCOLHAS CERTAS.  Só seremos felizes com escolhas acertadas. Escolhas acertadas, com o propósito e motivações corretas, só podem vir de Cristo que conhece o futuro e tem o controle sobre seus escravos.

Em João 8:32: “CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ”, Cristo se referiu à liberdade da natureza do cativeiro do pecado e não à livre agência. A posição da vontade, a natureza e as leis da ação do homem são as mesmas antes e depois da conversão. Tanto antes como depois da regeneração a vontade expressa o caráter de alguém. E o caráter que leva o homem a verdadeira felicidade e a fazer escolhas certas é o caráter que procede da mente de Cristo[15] que habita nos servos do Deus altíssimo, nas pessoas com mente transformada que nasceram de novo. QUER SER FELIZ? QUER SER LIVRE? CRISTO TEM QUE SER O SENHOR DA SUA VIDA. Ele tem que ter o controle e nós devemos esperar a transição do “ainda não” para o “já” e alcançarmos plenitude.

A respeito da trama e polemicas em torno da nova versão do conto, fica para outro pensamento peregrino. Até mais.



[1]  Aristóteles (Séc. IV a. C). Ele trata desse assunto em Ética a Nicômano. Ele declara que é livre e voluntária, a ação que não sofre coações. Todos os processos do universo e todos os seres, inclusive o homem possuem um fim, uma meta, o ser humano se diferencia dos outros por conhecer essa meta através de sua razão e por exercer ações voluntárias e morais que o guiarão à sua meta natural, ao seu bem.
[2] Quando Agostinho ressalva no capítulo X do livro “A cidade de Deus” “não peca o homem precisamente porque Deus soube de antemão” ele defende que apesar de Deus saber de antemão o que vamos fazer, ele não controla as nossas ações. Para Agostinho você possui a faculdade de perceber o bem e o mal, mas livre é aquele que possui sobre si a graça de Deus, pois sem esta graça é completamente impossível fazer o bem. Quando você está distante de Deus pela natureza pecaminosa que você possui (resultado do pecado original de Adão) a sua vontade sempre tenderá para fazer o mal. Sem a graça de Deus não existe liberdade.
[3] Na obra O ser e o nada- ensaio de ontologia fenomenológica (1943) e O existencialismo é um humanismo (1946),o filósofo defende que a liberdade é condição fundamental da ação e o homem está condenado a ser livre. O homem, ainda, é livre e sua ação é intencional. O que importa é o caráter intencional; é mesmo essa intencionalidade da ação humana que merece destaque. Por fim, escolher é angustiante e o homem é, afinal, condenado a ser livre.
[4] A liberdade, segundo Simon Blackburn, reside precisamente na capacidade de pensar duas vezes e de não fazer a primeira coisa que vem à cabeça. O homem manifesta essa capacidade na habilidade de responder a razões, de incorporá-las ao comportamento, no poder de escutar uns aos outros, de aceitar argumentos, de ser dissuadidos de cursos de ação por pressão dialógica e assim por diante.
[5] Novas pesquisas sugerem que o que cremos ser escolhas conscientes são decisões automáticas tomadas pelo cérebro. O homem não seria, assim, mais do que um computador de carne. No entanto poderemos abordar melhor este conceito em outro pensamento peregrino.
[6] Aqui não temos como objetivo de ter uma discursão exaustiva sobre este conceito, mas de levantar algumas implicações.
[7] Para alguns estarei falando de livre-arbítrio, mas por uma questão doutrinária entendo este conceito melhor explicado como livre agência que acredito assim: A. H. Strong diz: “Livre agência é a faculdade de autodeterminar-se em vista de motivos ou poder de o  homem  (a) escolher entre motivos e (b) dirigir sua atividade subsequente conforme com o motivo assim escolhido”(Systematic Theology, pág. 176). Um agente é “alguém que age, realiza um ato, ou tem poder para agir – uma força em movimento”.
[8] Ganhou popularidade por meio de escritores norte-americanos como Greg Boyd, John Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, estas ideias têm sido assimiladas e difundidas por alguns líderes evangélicos, às vezes de forma aberta e explícita.
[9] Para Heráclito de Éfeso, nascido por volta de 540 a.C., tudo o que existe está em permanente mudança ou transformação. A essa incessante alteração deu o nome de DEVIR.
[10] 1 Pedro 1.24-25. 24Porquanto: “todo ser humano é como a relva e toda a sua glória, como a flor da relva; a relva murcha e cai a sua flor, 25mas a Palavra do Senhor permanece para sempre”. E essa é a Palavra que vos foi evangelizada. Mateus 5:18. Com toda a certeza vos afirmo que, até que os céus e a terra passem, nem um iou o mínimo traço se omitirá da Lei até que tudo se cumpra.
[11] Segundo Wehmeyer (1992), a autodeterminação representa um conjunto de comportamentos e habilidades que dotam a pessoa da capacidade de ser o agente causal em relação ao seu futuro, ou seja, de ter comportamentos intencionais.
[12] Sugiro a leitura do livro Escravos. Em Escravo, John MacArthur traz à luz um elemento essencial da identidade do cristão, que ficou oculto a partir da tradução de muitas versões modernas da Bíblia. O autor resgata a correta tradução da palavra grega doulos, que é de grande importância para o bom entendimento do que é ser um cristão genuíno. Presente 124 vezes no texto original do NT, a palavra escravo (doulos), por motivos incertos, foi substituída por servo. Segundo MacArthur, essa tradução incorreta acobertou o verdadeiro significado do termo escravo e trouxe grande perda para o ensino correto do evangelho, o qual ordena que os crentes se submetam a Cristo completamente, não apenas como servos contratados, mas como quem pertence inteiramente a Ele.
[13] http://palavraprudente.com.br/biblia/teologia-sistematica-t-p-simmons/cap-19-a-livre-agencia-do-homem/
[14] Este professor foi o Marcos Granconato em uma aula de teologia sistemática no SBPV.
[15] 1Co 2:9-12 Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus.
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6 de abril de 2017
A importância do envolvimento político


“Insisto intensamente em provar isto, que nem sempre é perceptível aos homens, que mesmo um indivíduo do pior caráter; aquele que não é merecedor de qualquer honra; se estiver investido de autoridade pública, recebe aquele poder divino ilustre de sua justiça e julgamento que o Senhor, pela sua palavra, derramou sobre os governantes; assim, no que diz respeito à obediência pública, ele deve ser objeto da mesma honra e reverência que recebe o melhor dos reis” João Calvino

Façam isso, compreendendo o tempo em que vivemos. Chegou a hora de vocês despertarem do sono, porque agora a nossa salvação está mais próxima do que quando cremos. A noite está quase acabando; o dia logo vem. Portanto, deixemos de lado as obras das trevas e vistamo-nos a armadura da luz. Rom 13:12

O cristão desempenha seu engajamento social e valoriza os direitos individuais mesmo que isso lhe gere prejuízo e sofrimento. As Escrituras consideram o ofício do regente civil na mais alta conta e, portanto, não resta ao cristão outra opção, se não a de obediência. Mesmos os governantes ímpios têm a cobertura soberana de Deus. Confira as passagens de Daniel 2.21; 37; 4.17; 20; 5.18-19 e Jeremias 27.5-8; 12.

Mas ele não faz isso por mera obediência, mas porque tem a percepção de que seu testemunho conclama o evangelho de libertação e um reino superior. Paulo ilustra essa realidade com a figura da noite e do dia, referindo-se a realidade de que a vinda de Cristo Jesus e o estabelecimento do Seu Reino está próxima. Por isso, a nossa omissão no contexto social ou a rebelião e desrespeitos aos direitos estabelecidos socialmente são consideradas obras das trevas.

Sua instrução aos leitores é que eles se vistam com a armadura do reino vindouro. 1 Pedro 2.13-17 diz: Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens... ...Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos. Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos de Deus. Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei.

O comprometimento do Cristão com o governo civil é antes o comprometimento com os valores do REINO de CRISTO. Os Governantes não podem comandar ações que contradigam a Palavra de Deus. Resistência a esses comandos não podem ser classificados de insubmissão, mas de demonstração de lealdade a Deus. Vemos isso na resistência de Daniel (6.22) e como a submissão do povo, sob Jeroboão, que os levou à adoração de bezerros de ouro (1 Re 12.28) é condenada em Oseias 5.11. Em 1 Cor 7.23 Paulo diz: “Vocês foram comprados por alto preço; não se tornem escravos de homens”. O que segundo Calvino não devemos subjugar a liberdade recebida em Cristo às impiedades e desejos depravados dos homens.

Algumas questões para reflexão:
· Diante desses princípios qual deveria ser a postura do cristão no período eleitoral, por exemplo?
· O padrão bíblico deve ser imposto àqueles que não são cristãos? Exemplo: Qual deve ser a postura cristã diante da lei de união estável para pessoas do mesmo sexo?
· O cristão pode participar protestos ou greves? Em quais situações?


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30 de março de 2017
Valores que norteiam o pensamento político



“Que paz pública não seja perturbada; que as propriedades de cada pessoa sejam preservadas em segurança; que os homens possam tranquilamente exercitar o comércio uns com os outros; que seja incentivada a honestidade e a modéstia” João Calvino

- ENGAJAMENTO SOCIAL
É por isso também que vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Deem a cada um o que lhe é devido: Se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra. Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a lei. Rom 13:6-8

Retomando nosso tema, e seguindo o argumento dos versículos anteriores Paulo aponta ao menos 3 questões práticas do envolvimento, submissão e respeito ao governo civil. Essa tríade pode ser resumida no princípio de engajamento e responsabilidade social.

Observe que o engajamento social aponta para o resumo da segunda tábua da lei divina, que será citado no versículo posterior: “Ame o seu próximo como a si mesmo” Mateus 22.19. Os seis últimos mandamentos regulam as atividades e relacionamentos com os nossos vizinhos. Esse paralelo aponta a esfera de atuação do governo civil, a gestão das questões públicas e não particulares como por exemplo religião, família e propriedade. Além disso esse paralelo nos convida a uma postura de abnegação em prol do bem comum. Portanto, o envolvimento político não é só legitimo, mas é esperado do cristão que recebeu uma nova mentalidade de responsabilidade em Jesus Cristo.

- DIREITOS PESSOAIS
“Os governantes [magistrados] devem fazer o máximo para impedir que a liberdade, à qual foram indicados como guardiões, seja suprimida ou violada. Se eles desempenham essa tarefa de forma relaxada ou descuidada, não passam de pérfidos traidores ao ofício que ocupam e ao seu país”. João Calvino

Pois estes mandamentos: "Não adulterarás", "não matarás", "não furtarás", "não cobiçarás", e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: "Ame o seu próximo como a si mesmo". O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei. Rom 13:9

Passagens bíblicas conclamam os governantes a exercitar os princípios divinos de justiça, como Jeremias 23.2 e Salmos 82.3-4. Mas quais os direitos do âmbito pessoal que precisam ser respeitados e defendidos no âmbito público pelo governo? Romanos 13.9 nos aponta para os direitos fundamentais do homem: vida, propriedade e liberdade.

Os direitos de vida e propriedade talvez estejam bastantes claros no texto. Mas para compreendermos melhor o de liberdade é importante observarmos o paralelo entre adulterarás e cobiçaras. As referências dessas duas leis iniciando e concluindo a lista de Paulo apontam para a necessidade de conquistas legítimas. É como se o apostolo dissesse: não busque meios ilegais desejando o que é do outro, utilize da sua liberdade e permita que seu próximo possa usufruir de suas conquistas livremente sob os aspectos morais e legais envolvidos.
 
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23 de março de 2017
O que a Bíblia fala sobre política?



Política pode ter dois significados. Um deles é a arte de negociação para alinhar os interesses; o outro significado, que nos interessa, é a ciência da administração de um estado ou nação. De modo geral é a visão política que vai determinar como as decisões de esfera pública são tomadas. Você não encontrará a expressão na Bíblia, mas a Palavra vai tratar de esferas de governo: família, igreja, governo civil, etc.


Muitos cristãos veem o governo civil como algo ruim, chagando a demoniza-lo. Isso não é novidade, Calvino precisou confrontar e opor-se aos Anabatistas que ensinavam essa perspectiva, que infelizmente, está amplamente difundida no meio "gospel". Mesmos grupos mais tradicionais condenam o envolvimento político e como se não bastasse, ainda apontam o envolvimento social como algo inútil e desnecessário.


Meu intuito não é expressar um discurso áspero ou mesmo carregado de amargura contra a "igreja que está adormecida", mas a partir do texto bíblico compreender a perspectiva bíblica de maneira clara e objetiva. 


Por meu intermédio os reis governam, e as autoridades exercem a justiça; também por meu intermédio governam os nobres, todos os juízes da terra. Provérbios 8:15 


Todo governo civil é autenticado, sendo estabelecido pelo próprio Deus. Ele não simplesmente reconhece a autoridade dos poderes, mas está envolvido e atuando na história para utiliza-los para cumprimento de seus propósitos. 


Não inferindo ao texto modelos modernos de política, mas podemos observar que as instruções do sábio salomão parecem apontar inclusive para a realidade do legislativo, executivo e judiciário.


Mas como deve ser nosso envolvimento? Nos próximos artigos esperamos ajuda-los a responder essa pergunta a partir do texto de Romanos 13, que nos dá orientações de como devemos nos portar no espaço público e civil.


Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. Rom 13:1-5


Esses poucos versículos nos apresentam lições significativas de como deve ser a nossa postura diante do governo civil. Há dois imperativos que regem essa relação: sejamos submissos e pratiquem o bem. Paulo expressa com isso dois princípios, a submissão e o envolvimento. Esses estão alinhados com a soberania do Senhor Deus que não apenas reveste de autoridade os governantes, mas espera de nós uma participação ativa no cenário cívico. Não é à toa que o próprio Jesus ora em João 17: “Não os tire do mundo, mas os livre do mal”! 


A alienação política e social anda na contramão do que o Senhor espera de nós. Estar no mundo é dar a Cesar o que é de Cesar, é servir de modelo diante de uma sociedade corrompida, revelando os valores do reino eterno e calar a boca dos que se opõem a justiça através da prática das boas obras. Estar no mundo é envolver-se com ele a ponto de influencia-lo, sendo preservado pelo Espírito Santo de Deus pelo poder da Palavra, e não se isolar em uma cúpula religiosa. Para isso precisamos nos submetermos, e praticarmos o bem - submissão e envolvimento. 


Um terceiro princípio está implícito em nosso texto. A submissão às autoridades civis precisa estar fundamentada no respeito, essa perspectiva é reforçada pelo versículo 7 do mesmo capítulo. Jesus nos dá o exemplo. Mesmo diante de injustiças, pessoalmente Jesus submeteu-se às autoridades civis não se rebelando contra a postura que eles assumiram, e fez isso em respeito à autoridade a elas concedidas:


Jesus respondeu: “Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima. Por isso, aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado maior”. João 19.11



O que a Bíblia fala sobre política?  O governo civil é estabelecido por Deus e, portanto, merece nosso ENVOLVIMENTO, RESPEITO e SUBMISSÃO.

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21 de março de 2017
Crítica aos Minimalistas

Os professores Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, e Neil A. Silberman, diretor de interpretação histórica do Centro Ename de Arqueologia Pública, na Bélgica, conhecidos como “minimalistas”, argumentam que a existência de Davi e a descrição inteira da história de Israel na Bíblia não passariam de construções ideológicas elaboradas com habilidade, produzidas por círculos sacerdotais em Jerusalém, depois do exílio na Babilônia, ou mesmo em tempos helenísticos.

Trata-se de um viés interpretativo que considera que a história bíblica de Israel foi escrita com o fim de trazer honra ao passado desastroso do povo, em virtude dos reiterados cativeiros que veio a sofrer. Para recontar a história e trazer esperança ao povo, a casta sacerdotal teria criado a figura do rei Davi, como se fosse um ícone, um herói, que mudaria a perspectiva do povo em relação ao seu próprio passado.

Tendo consciência de que não sou historiador, tampouco arqueólogo bíblico, ouso humildemente em tecer breves considerações acerca dos ditos “minimalistas”: Davi não é o herói que pensam ter sido e sua história não foi inventada com o fim de esperançar Israel acerca de seu próprio passado.

Muitos eruditos discutem que remanescentes arqueológicos da época de Salomão estão faltando, em virtude de terem sido erradicados, por exemplo, pelas maciças construções de Herodes no monte do Templo, no antigo período romano. Além disso, a ausência de referências externas a Davi e a Salomão em antigas inscrições é bem compreensível, pois a era na qual se acredita que eles governaram (c. 1005-930 a.C.) foi o período de declínio dos grandes impérios do Egito e da Mesopotâmia. Portanto, não surpreende a inexistência de referências a Davi e a Salomão nos escassos textos egípcios e mesopotâmicos, seus contemporâneos[1].

Embora seja necessário destacar pontos a favor da arqueologia bíblica, acredito que também podemos destacar pontos cruciais para nossa caminhada cristã. Creio que, ao contrário do que os minimalistas sugerem, a história de Davi não tenha sido como pensam ter sido.

Davi certamente, de acordo com os relatos bíblicos, obteve grandes conquistas militares e políticas. Tal como essas conquistas, temos o conhecimento também de que foi um rei adúltero, que sobrepujou a lei à qual dizia que estava submetido, e se deitou com a mulher de um de seus oficiais de confiança. Refiro-me ao famoso episódio de adultério com Bate-Seba (2 Samuel 11). 

Neste ponto, acredito que o rei Davi não tenha sido um dos melhores homens da história de Israel e, ao contrário do que os minimalistas pensam, o episódio bíblico seria propulsor não de honra, mas de vergonha. É preciso nos perguntar: o que significaria um passado “honroso” para um povo?

É espantoso observar como um pecado de tamanha gravidade tenha se tornado público, de conhecimento de cerca de 7 bilhões de pessoas depois de cerca de 3000 anos.

Como um rei, como Davi, não teria vergonha de confessar um pecado cuja pena seria a própria vida (Levítico 20.10) e lhe comprometeria a reputação, o poderio como monarca e suas afeições familiares?

Davi, longe de ser um herói humano que proporcionaria glória para Israel, foi um herói da fé. A honra de seu passado e, consequentemente, da história de Israel, está no reconhecimento de sua pequenez.

O que os minimalistas talvez não tenham entendido é que a lógica é inversa. Não são as guerras e as conquistas políticas que dão ao homem a “honra” e a “dignidade”. Mas é a confissão e arrependimento de tudo o que somos e queremos, de tudo aquilo que nos levaria ao arcabouço da vergonha. São esses a quem Jesus se referia: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus (Mateus 5:3).

Feliz foi Davi, pois foi “miserável” de espírito e, certamente, dele é o reino dos céus.



[1] FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão; traduzido por Tuca Magalhães. – São Paulo: A Girafa Editora, 2003. pp. 181 e 182.

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16 de março de 2017
O Evangelho na vida de Albert Einstein

Série - O Evangelho na vida de um ateu: O filósofo, o Romancista e o Físico


Como vejo o mundo

Como renomado físico que era, Albert Einstein recebeu, na década de 20, o Prêmio Nobel de Física. Tempos depois, foi eleito o mais notável físico de todos os tempos, tendo como uma de suas maiores contribuições a teoria da relatividade.

Ao escrever, em caráter mais pessoal, o livro “Como vejo o mundo”, Einstein aborda questões como religião, liberdade e moral. Acreditava ele que a religião de fato proporcionaria respostas a perguntas sobre a existência humana[1]:

“Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso. Mas, ‘fazer tais perguntas tem sentido?’ Respondo: ‘Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver’.”

Einstein, como cientista inato, também encontrava no universo grande admiração, de forma que chegou a propor uma espécie de “religiosidade cósmica”, a respeito da qual lhe seria dificultoso falar, pois não haveria nenhuma divindade humana apta a explicar tal realeza[2]:

“Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico.”

Diz ele que se notam exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas[3]. De fato, o Rei Davi, a quem Einstein se refere, apreciava o universo em toda sua formosura, como uma manifestação de louvor (Salmo 19.1).

Ambos contemplavam o mesmo universo; e o descreviam com um espírito poético o que lhes estava diante dos olhos. Einstein, no entanto, reconheceu que neste arcabouço de beleza inimaginável alguns de seus companheiros encontrariam grande motivação para os estudos[4]:

 “Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência a se desvendar no mundo, deviam animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, por um trabalho solitário de muitos anos.”

Ali encontramos aspectos da Graça, na criação. De maneira curiosa, Einstein percebeu que diante de toda a imensidão do universo só nos restaria um profundo vazio, sobre o que escreve[5]:

“Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório.”

Einstein vislumbrava a criação, mas não o Criador. Não sabemos se em seu último suspiro ele continuou acreditando que não existia nada além do universo.

Tal como um som orquestrado, Einstein ouvia os ruídos da Graça, cuja majestade repercutia no universo criado. Assim já dizia o Apóstolo Paulo, pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas (Romanos 1.20).

Por que é tão difícil perceber os vestígios da Graça, até mesmo quando estamos rodeados de tantas coisas que a manifestam? O Evangelho na vida de um ateu, na verdade, é o Evangelho na vida de todos nós, que, mesmo descrentes de tamanho favor, Ele nos amou (Romanos 5.8).


[1] EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Tradução de H. P. de Andrade. Ed. especial. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 16.
[2] Idem. p. 23.
[3] Idem. p. 23.
[4] Idem. p. 25.
[5] Idem. p. 26.

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