6 de abril de 2017
A importância do envolvimento político


“Insisto intensamente em provar isto, que nem sempre é perceptível aos homens, que mesmo um indivíduo do pior caráter; aquele que não é merecedor de qualquer honra; se estiver investido de autoridade pública, recebe aquele poder divino ilustre de sua justiça e julgamento que o Senhor, pela sua palavra, derramou sobre os governantes; assim, no que diz respeito à obediência pública, ele deve ser objeto da mesma honra e reverência que recebe o melhor dos reis” João Calvino

Façam isso, compreendendo o tempo em que vivemos. Chegou a hora de vocês despertarem do sono, porque agora a nossa salvação está mais próxima do que quando cremos. A noite está quase acabando; o dia logo vem. Portanto, deixemos de lado as obras das trevas e vistamo-nos a armadura da luz. Rom 13:12

O cristão desempenha seu engajamento social e valoriza os direitos individuais mesmo que isso lhe gere prejuízo e sofrimento. As Escrituras consideram o ofício do regente civil na mais alta conta e, portanto, não resta ao cristão outra opção, se não a de obediência. Mesmos os governantes ímpios têm a cobertura soberana de Deus. Confira as passagens de Daniel 2.21; 37; 4.17; 20; 5.18-19 e Jeremias 27.5-8; 12.

Mas ele não faz isso por mera obediência, mas porque tem a percepção de que seu testemunho conclama o evangelho de libertação e um reino superior. Paulo ilustra essa realidade com a figura da noite e do dia, referindo-se a realidade de que a vinda de Cristo Jesus e o estabelecimento do Seu Reino está próxima. Por isso, a nossa omissão no contexto social ou a rebelião e desrespeitos aos direitos estabelecidos socialmente são consideradas obras das trevas.

Sua instrução aos leitores é que eles se vistam com a armadura do reino vindouro. 1 Pedro 2.13-17 diz: Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens... ...Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos. Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos de Deus. Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei.

O comprometimento do Cristão com o governo civil é antes o comprometimento com os valores do REINO de CRISTO. Os Governantes não podem comandar ações que contradigam a Palavra de Deus. Resistência a esses comandos não podem ser classificados de insubmissão, mas de demonstração de lealdade a Deus. Vemos isso na resistência de Daniel (6.22) e como a submissão do povo, sob Jeroboão, que os levou à adoração de bezerros de ouro (1 Re 12.28) é condenada em Oseias 5.11. Em 1 Cor 7.23 Paulo diz: “Vocês foram comprados por alto preço; não se tornem escravos de homens”. O que segundo Calvino não devemos subjugar a liberdade recebida em Cristo às impiedades e desejos depravados dos homens.

Algumas questões para reflexão:
· Diante desses princípios qual deveria ser a postura do cristão no período eleitoral, por exemplo?
· O padrão bíblico deve ser imposto àqueles que não são cristãos? Exemplo: Qual deve ser a postura cristã diante da lei de união estável para pessoas do mesmo sexo?
· O cristão pode participar protestos ou greves? Em quais situações?


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30 de março de 2017
Valores que norteiam o pensamento político



“Que paz pública não seja perturbada; que as propriedades de cada pessoa sejam preservadas em segurança; que os homens possam tranquilamente exercitar o comércio uns com os outros; que seja incentivada a honestidade e a modéstia” João Calvino

- ENGAJAMENTO SOCIAL
É por isso também que vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Deem a cada um o que lhe é devido: Se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra. Não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a lei. Rom 13:6-8

Retomando nosso tema, e seguindo o argumento dos versículos anteriores Paulo aponta ao menos 3 questões práticas do envolvimento, submissão e respeito ao governo civil. Essa tríade pode ser resumida no princípio de engajamento e responsabilidade social.

Observe que o engajamento social aponta para o resumo da segunda tábua da lei divina, que será citado no versículo posterior: “Ame o seu próximo como a si mesmo” Mateus 22.19. Os seis últimos mandamentos regulam as atividades e relacionamentos com os nossos vizinhos. Esse paralelo aponta a esfera de atuação do governo civil, a gestão das questões públicas e não particulares como por exemplo religião, família e propriedade. Além disso esse paralelo nos convida a uma postura de abnegação em prol do bem comum. Portanto, o envolvimento político não é só legitimo, mas é esperado do cristão que recebeu uma nova mentalidade de responsabilidade em Jesus Cristo.

- DIREITOS PESSOAIS
“Os governantes [magistrados] devem fazer o máximo para impedir que a liberdade, à qual foram indicados como guardiões, seja suprimida ou violada. Se eles desempenham essa tarefa de forma relaxada ou descuidada, não passam de pérfidos traidores ao ofício que ocupam e ao seu país”. João Calvino

Pois estes mandamentos: "Não adulterarás", "não matarás", "não furtarás", "não cobiçarás", e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: "Ame o seu próximo como a si mesmo". O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei. Rom 13:9

Passagens bíblicas conclamam os governantes a exercitar os princípios divinos de justiça, como Jeremias 23.2 e Salmos 82.3-4. Mas quais os direitos do âmbito pessoal que precisam ser respeitados e defendidos no âmbito público pelo governo? Romanos 13.9 nos aponta para os direitos fundamentais do homem: vida, propriedade e liberdade.

Os direitos de vida e propriedade talvez estejam bastantes claros no texto. Mas para compreendermos melhor o de liberdade é importante observarmos o paralelo entre adulterarás e cobiçaras. As referências dessas duas leis iniciando e concluindo a lista de Paulo apontam para a necessidade de conquistas legítimas. É como se o apostolo dissesse: não busque meios ilegais desejando o que é do outro, utilize da sua liberdade e permita que seu próximo possa usufruir de suas conquistas livremente sob os aspectos morais e legais envolvidos.
 
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23 de março de 2017
O que a Bíblia fala sobre política?



Política pode ter dois significados. Um deles é a arte de negociação para alinhar os interesses; o outro significado, que nos interessa, é a ciência da administração de um estado ou nação. De modo geral é a visão política que vai determinar como as decisões de esfera pública são tomadas. Você não encontrará a expressão na Bíblia, mas a Palavra vai tratar de esferas de governo: família, igreja, governo civil, etc.


Muitos cristãos veem o governo civil como algo ruim, chagando a demoniza-lo. Isso não é novidade, Calvino precisou confrontar e opor-se aos Anabatistas que ensinavam essa perspectiva, que infelizmente, está amplamente difundida no meio "gospel". Mesmos grupos mais tradicionais condenam o envolvimento político e como se não bastasse, ainda apontam o envolvimento social como algo inútil e desnecessário.


Meu intuito não é expressar um discurso áspero ou mesmo carregado de amargura contra a "igreja que está adormecida", mas a partir do texto bíblico compreender a perspectiva bíblica de maneira clara e objetiva. 


Por meu intermédio os reis governam, e as autoridades exercem a justiça; também por meu intermédio governam os nobres, todos os juízes da terra. Provérbios 8:15 


Todo governo civil é autenticado, sendo estabelecido pelo próprio Deus. Ele não simplesmente reconhece a autoridade dos poderes, mas está envolvido e atuando na história para utiliza-los para cumprimento de seus propósitos. 


Não inferindo ao texto modelos modernos de política, mas podemos observar que as instruções do sábio salomão parecem apontar inclusive para a realidade do legislativo, executivo e judiciário.


Mas como deve ser nosso envolvimento? Nos próximos artigos esperamos ajuda-los a responder essa pergunta a partir do texto de Romanos 13, que nos dá orientações de como devemos nos portar no espaço público e civil.


Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. Rom 13:1-5


Esses poucos versículos nos apresentam lições significativas de como deve ser a nossa postura diante do governo civil. Há dois imperativos que regem essa relação: sejamos submissos e pratiquem o bem. Paulo expressa com isso dois princípios, a submissão e o envolvimento. Esses estão alinhados com a soberania do Senhor Deus que não apenas reveste de autoridade os governantes, mas espera de nós uma participação ativa no cenário cívico. Não é à toa que o próprio Jesus ora em João 17: “Não os tire do mundo, mas os livre do mal”! 


A alienação política e social anda na contramão do que o Senhor espera de nós. Estar no mundo é dar a Cesar o que é de Cesar, é servir de modelo diante de uma sociedade corrompida, revelando os valores do reino eterno e calar a boca dos que se opõem a justiça através da prática das boas obras. Estar no mundo é envolver-se com ele a ponto de influencia-lo, sendo preservado pelo Espírito Santo de Deus pelo poder da Palavra, e não se isolar em uma cúpula religiosa. Para isso precisamos nos submetermos, e praticarmos o bem - submissão e envolvimento. 


Um terceiro princípio está implícito em nosso texto. A submissão às autoridades civis precisa estar fundamentada no respeito, essa perspectiva é reforçada pelo versículo 7 do mesmo capítulo. Jesus nos dá o exemplo. Mesmo diante de injustiças, pessoalmente Jesus submeteu-se às autoridades civis não se rebelando contra a postura que eles assumiram, e fez isso em respeito à autoridade a elas concedidas:


Jesus respondeu: “Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima. Por isso, aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado maior”. João 19.11



O que a Bíblia fala sobre política?  O governo civil é estabelecido por Deus e, portanto, merece nosso ENVOLVIMENTO, RESPEITO e SUBMISSÃO.

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21 de março de 2017
Crítica aos Minimalistas

Os professores Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, e Neil A. Silberman, diretor de interpretação histórica do Centro Ename de Arqueologia Pública, na Bélgica, conhecidos como “minimalistas”, argumentam que a existência de Davi e a descrição inteira da história de Israel na Bíblia não passariam de construções ideológicas elaboradas com habilidade, produzidas por círculos sacerdotais em Jerusalém, depois do exílio na Babilônia, ou mesmo em tempos helenísticos.

Trata-se de um viés interpretativo que considera que a história bíblica de Israel foi escrita com o fim de trazer honra ao passado desastroso do povo, em virtude dos reiterados cativeiros que veio a sofrer. Para recontar a história e trazer esperança ao povo, a casta sacerdotal teria criado a figura do rei Davi, como se fosse um ícone, um herói, que mudaria a perspectiva do povo em relação ao seu próprio passado.

Tendo consciência de que não sou historiador, tampouco arqueólogo bíblico, ouso humildemente em tecer breves considerações acerca dos ditos “minimalistas”: Davi não é o herói que pensam ter sido e sua história não foi inventada com o fim de esperançar Israel acerca de seu próprio passado.

Muitos eruditos discutem que remanescentes arqueológicos da época de Salomão estão faltando, em virtude de terem sido erradicados, por exemplo, pelas maciças construções de Herodes no monte do Templo, no antigo período romano. Além disso, a ausência de referências externas a Davi e a Salomão em antigas inscrições é bem compreensível, pois a era na qual se acredita que eles governaram (c. 1005-930 a.C.) foi o período de declínio dos grandes impérios do Egito e da Mesopotâmia. Portanto, não surpreende a inexistência de referências a Davi e a Salomão nos escassos textos egípcios e mesopotâmicos, seus contemporâneos[1].

Embora seja necessário destacar pontos a favor da arqueologia bíblica, acredito que também podemos destacar pontos cruciais para nossa caminhada cristã. Creio que, ao contrário do que os minimalistas sugerem, a história de Davi não tenha sido como pensam ter sido.

Davi certamente, de acordo com os relatos bíblicos, obteve grandes conquistas militares e políticas. Tal como essas conquistas, temos o conhecimento também de que foi um rei adúltero, que sobrepujou a lei à qual dizia que estava submetido, e se deitou com a mulher de um de seus oficiais de confiança. Refiro-me ao famoso episódio de adultério com Bate-Seba (2 Samuel 11). 

Neste ponto, acredito que o rei Davi não tenha sido um dos melhores homens da história de Israel e, ao contrário do que os minimalistas pensam, o episódio bíblico seria propulsor não de honra, mas de vergonha. É preciso nos perguntar: o que significaria um passado “honroso” para um povo?

É espantoso observar como um pecado de tamanha gravidade tenha se tornado público, de conhecimento de cerca de 7 bilhões de pessoas depois de cerca de 3000 anos.

Como um rei, como Davi, não teria vergonha de confessar um pecado cuja pena seria a própria vida (Levítico 20.10) e lhe comprometeria a reputação, o poderio como monarca e suas afeições familiares?

Davi, longe de ser um herói humano que proporcionaria glória para Israel, foi um herói da fé. A honra de seu passado e, consequentemente, da história de Israel, está no reconhecimento de sua pequenez.

O que os minimalistas talvez não tenham entendido é que a lógica é inversa. Não são as guerras e as conquistas políticas que dão ao homem a “honra” e a “dignidade”. Mas é a confissão e arrependimento de tudo o que somos e queremos, de tudo aquilo que nos levaria ao arcabouço da vergonha. São esses a quem Jesus se referia: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus (Mateus 5:3).

Feliz foi Davi, pois foi “miserável” de espírito e, certamente, dele é o reino dos céus.



[1] FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão; traduzido por Tuca Magalhães. – São Paulo: A Girafa Editora, 2003. pp. 181 e 182.

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16 de março de 2017
O Evangelho na vida de Albert Einstein

Série - O Evangelho na vida de um ateu: O filósofo, o Romancista e o Físico


Como vejo o mundo

Como renomado físico que era, Albert Einstein recebeu, na década de 20, o Prêmio Nobel de Física. Tempos depois, foi eleito o mais notável físico de todos os tempos, tendo como uma de suas maiores contribuições a teoria da relatividade.

Ao escrever, em caráter mais pessoal, o livro “Como vejo o mundo”, Einstein aborda questões como religião, liberdade e moral. Acreditava ele que a religião de fato proporcionaria respostas a perguntas sobre a existência humana[1]:

“Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso. Mas, ‘fazer tais perguntas tem sentido?’ Respondo: ‘Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver’.”

Einstein, como cientista inato, também encontrava no universo grande admiração, de forma que chegou a propor uma espécie de “religiosidade cósmica”, a respeito da qual lhe seria dificultoso falar, pois não haveria nenhuma divindade humana apta a explicar tal realeza[2]:

“Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico.”

Diz ele que se notam exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas[3]. De fato, o Rei Davi, a quem Einstein se refere, apreciava o universo em toda sua formosura, como uma manifestação de louvor (Salmo 19.1).

Ambos contemplavam o mesmo universo; e o descreviam com um espírito poético o que lhes estava diante dos olhos. Einstein, no entanto, reconheceu que neste arcabouço de beleza inimaginável alguns de seus companheiros encontrariam grande motivação para os estudos[4]:

 “Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência a se desvendar no mundo, deviam animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, por um trabalho solitário de muitos anos.”

Ali encontramos aspectos da Graça, na criação. De maneira curiosa, Einstein percebeu que diante de toda a imensidão do universo só nos restaria um profundo vazio, sobre o que escreve[5]:

“Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório.”

Einstein vislumbrava a criação, mas não o Criador. Não sabemos se em seu último suspiro ele continuou acreditando que não existia nada além do universo.

Tal como um som orquestrado, Einstein ouvia os ruídos da Graça, cuja majestade repercutia no universo criado. Assim já dizia o Apóstolo Paulo, pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas (Romanos 1.20).

Por que é tão difícil perceber os vestígios da Graça, até mesmo quando estamos rodeados de tantas coisas que a manifestam? O Evangelho na vida de um ateu, na verdade, é o Evangelho na vida de todos nós, que, mesmo descrentes de tamanho favor, Ele nos amou (Romanos 5.8).


[1] EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Tradução de H. P. de Andrade. Ed. especial. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. p. 16.
[2] Idem. p. 23.
[3] Idem. p. 23.
[4] Idem. p. 25.
[5] Idem. p. 26.

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9 de março de 2017
O Evangelho na vida de José Saramago


Série - O Evangelho na vida de um ateu: O Filósofo, o Romancista e o Físico

O Evangelho segundo Jesus Cristo

Vimos aspectos da Graça e do Evangelho na obra de Bertrand Russell, filósofo proeminente do século XX. Suas críticas às condutas humanas se coadunam com o proposto por Cristo, de que por essas razões veio o Filho do Homem, para reconciliar um relacionamento desprezado.

José Saramago, poeta e dramaturgo português que recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1988, escreveu o relevante romance “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, no qual propõe uma reinterpretação sobre a vida e morte do Nazareno.

Ao descrever em forma de romance o cenário da crucificação, Saramago nos inspira referenciando a vida medíocre que Jesus levou em relação à gloriosa morte que o exaltou[1]:

“[A] afligida mulher é a viúva de um carpinteiro chamado José e mãe de numerosos filhos e filhas, embora só um deles, por imperativos do destino ou de quem o governa, tenha vindo a prosperar, em vida mediocremente, mas maiormente depois da morte.”

O interessante deste trecho é observar que a lógica que o permeia é que a entrega de uma vida proporcionou glória. De maneira semelhante, Timothy Keller, pastor norte americano, esclarece que[2]:

“Jesus perdeu todo o poder e serviu a fim de nos salvar. Ele morreu, mas isso levou à redenção e ressurreição. Então, se, como (...) Jesus, você cair em grande fraqueza, mas disser ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lucas 23:46), haverá crescimento, mudança e ressurreição.”

Certamente, Keller e Saramago descreveram o mesmo cenário de maneiras distintas. No entanto, podemos vislumbrar resquícios da mensagem do Evangelho na obra do romancista português principalmente quando ele descreve que[3]:

“Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino final e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores. É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena, este que faz chorar o sol e a lua, este que ainda agora louvou o Bom Ladrão e desprezou o Mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro”

De fato, a morte de Jesus, como relatado, foi um momento estarrecedor. Naquele momento, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra tremeu, e as rochas se partiram. Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que tinham morrido foram ressuscitados (Mateus 27:51,52).

Ele venceu. Ele viveu.

José Saramago conhecia a profundidade da morte de Cristo? Ao lermos sua obra percebemos que ele não encontrou a expressão legítima do evangelho e por isso a morte de Cristo não impactou seu discurso conduzindo-o a compreensão da moral e ética da Bíblia em reconhecimento de Jesus como Deus que tornou-se homem. No entanto, ele descreveu o cenário onde ocorreu a maior prova de amor e aponta para essa cena como fonte de esperança para uma vida eterna. 

Esperança essa que não é casta, mas que produz transformação e intimidade hoje, apontando para uma realidade futura e certa amanhã.

Em seu discurso vemos resquícios de uma verdade impactante advinda das implicações acerca da morte de Cristo, o que me leva a pensar: qual a minha perspectiva desse fato histórico? De que maneira ela foi única e gloriosa? Diante disso, por qual motivo Sua morte parece não fazer diferença em várias partes da minha vida? 

"A salvação é uma operação de resgate, empreendida pelas pessoas cuja situação é tão desesperadora que não podem salvar-se a si mesmas... ...embora os pecados sejam nossos, a morte é de Cristo: ele morreu pelos nossos pecados, levando a penalidade deles em nosso lugar." J. Stott (A Cruz de Cristo)



[1] SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo: romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 9.
[2] KELLER, Timothy J. Deuses falsos: eles prometem sexo, poder e dinheiro, mas é disso que você precisa?; tradução Érika Koblitz Essinger. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010. p. 115.
[3] Idem. p. 11-12.

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